Tenho dó das estrelas
Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo…
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas,
Como das pernas ou de um braço,
Um cansaço de existir,
De ser.
Só de ser.
O ser triste brilhar ou sorrir…
Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão –
Qualquer coisa assim
Como um perdão?
17.7.12
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fernando pessoa – ele mesmo
6.7.12
1986
Beijando-a na estação sem metrô
dentro do livro do John Donne
ou beijando-a na biblioteca,
fora do jardim do mosteiro
do pátio da faculdade do mosteiro,
beijando-a de longe:
na espera da sua chegada beijando-a na espera
e na chegada dela
beijando-a na chegada
ou não a beijando,
esperando Ela na espera para o beijo e
na chegada dela
beijando-a na própria espera.
E depois que beijar
lá na sacada
deixa-la partir
para os que não a beija,
para os que não reza.
dentro do livro do John Donne
ou beijando-a na biblioteca,
fora do jardim do mosteiro
do pátio da faculdade do mosteiro,
beijando-a de longe:
na espera da sua chegada beijando-a na espera
e na chegada dela
beijando-a na chegada
ou não a beijando,
esperando Ela na espera para o beijo e
na chegada dela
beijando-a na própria espera.
E depois que beijar
lá na sacada
deixa-la partir
para os que não a beija,
para os que não reza.
5.7.12
Bendito seja de dia e bendito seja de noite...
Os senhores do Mahamad fazem saber a vossas mercês: como há dias que, tendo notícia das más opiniões de Baruch de Espinoza, procuraram por diferentes caminhos e promessas retirá-lo de seus maus caminhos; e que, não podendo remediá-lo, antes, pelo contrário, tendo a cada dia maiores notícias das horrendas heresias que praticava e ensinava, e das enormes obras que praticava; tendo disso muitas testemunhas fidedignas que depuseram e testemunharam tudo em presença de dito Espinoza, de que ficou convencido, o qual tendo tudo examinado em presença dos Senhores Hahamín, deliberaram com o seu parecer que dito Espinoza seja excomunhado e apartado de toda nação de Israel como atualmente o põe em herém, com o Herém seguinte: Com a sentença dos Anjos, com dito dos Santos, com o consentimento do Deus Bendito e o consentimento de todo este Kahal Kados, diante dos Santos Sepharin, estes, com seiscentos e treze parceiros que estão escritos neles, nós Excomunhamos, apartamos, amaldiçoamos e praguejamos a Baruch de Espinoza, como o herém que excomunhou Josué a Jericó, com a maldição que maldisse Elias aos moços, e com todas as maldições que estão escritas na Lei. Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar e maldito seja em seu levantar, maldito ele em seu sair e maldito ele em seu entrar; não queira Adonai perdoar a ele, que então então semeie o furor de Adonai e seu zelo neste homem e caia nele todas as maldições escritas no livro desta Lei. E vós, os apegados com Adonai, vosso Deus, sejais atento todos vós hoje. Advertindo que ninguém lhe pode falar oralmente nem por escrito, nem lhe fazer nenhum favor, nem estar com ele debaixo do mesmo teto, nem junto com ele a menos de quatro côvados (três palmos, isto é, 0,66m; cúbito), nem ler papel algum feito ou escrito por ele.
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Baruch Spinoza
3.6.12
Evocar Emmanuel Levinas
O amor visa outrem, visa-o na sua fraqueza. A fraqueza não representa aqui o grau inferior de um qualquer atributo, a insuficiência relativa de uma determinação comum a mim e ao Outro. Anterior à manifestação dos atributos, ela qualifica a própria alteridade. Amar é temer por outrem, levar ajuda à sua fraqueza. Nessa fraqueza, como na aurora, se levanta o Amado que é Amada. Epifania do Amado, o feminino não vem juntar-se ao objeto e ao Tu, previamente dados ou encontrados no neutro, o único genero conhecido pela lógica formal. A epifania da Amada faz um só com o seu regime de ternura. A maneira da ternura consiste numa fragilidade extrema, numa total vulnerabilidade. Manifesta-se no limite do ser e do não ser, como um doce calor em que o ser se dissipa irradiando, como o "encarnado leve" das ninfas no Après-midi d'un faune que "adeja no ar entorpecido de sonos espessos", que se desindividua e se liberta do seu próprio peso de ser, já evanescência e delíquio, fuga em si no próprio seio da sua manifestação. E nessa fuga o Outro é Outro, estranho ao mundo, demasiado grosseiro e ofensivo para ele.
Totalidade e Infinito, Secção IV (Para além do Rosto) B Fenomenologia do Eros.
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emmanuel levinas,
I
29.5.12
Tenzone, Ezra Pound
Will people accept them?
(i.e. these songs).
As a timorous wench from a centaur
(or a centurion),
Already they flee, howling in terror.
Will they be touched with the verisimilitudes?
Their virgin stupidity is untemptable.
I beg you, my friendly critics,
Do not set about to procure me an audience.
I mate with my free kind upon the crags;
the hidden recesses
Have heard the echo ofmy heels,
in the cool light,
in the darkness.
(i.e. these songs).
As a timorous wench from a centaur
(or a centurion),
Already they flee, howling in terror.
Will they be touched with the verisimilitudes?
Their virgin stupidity is untemptable.
I beg you, my friendly critics,
Do not set about to procure me an audience.
I mate with my free kind upon the crags;
the hidden recesses
Have heard the echo ofmy heels,
in the cool light,
in the darkness.
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ezra pound,
será que eles aceitarão?
14.5.12
o real interesse de olga belov por guimarães rosa nos rendeu a sua complexa tese de doutorado: problemas de (in)traduzibilidade em "a hora e a vez de augusto matraga", de joão guimarães rosa nas versões de língua inglesa e russa (2008), texto que a editora da ACB chamou de a força da tradução, num título pomposo que sem trair a questão central do estudo atrai nossa curiosidade e nos faz indagar: como se desenrola?
.a citação inicial do trabalho é do francês jacques derrida:
.a citação inicial do trabalho é do francês jacques derrida:
"Dentro dos limites em que é possível, em que elo menos parece possível, a tradução pratica a diferença entre significado e significante. Mas, se esta diferença nunca é pura, a tradução também não o é, e temos de substituir a noção de tradução por uma noção de transformação: transformação regulada de uma língua por outras, de um texto por outro" Posições.
.
na frase do pensador citado, a noção de tradução assume claramente caráter de alteridade. para uma noção de alteridade, o outro é diferente do mesmo porque tem suas peculiaridades e particularidades e não só a tradução como as línguas em si não escapam de tal dinâmica.
.
o trabalho de olga belov usa duas expressões-chaves: texto de língua de chegada e texto de língua de partida, que em sigla aparecem como tlc e tcp. em outras palavras: repetir algo em outra língua re-configura (desfigura?) a forma, traduttore traditore.
.
olga belov discute amplamente aquilo que pode ser compreendido como a tradução que assume caráter de transformação e, de outra forma: olga belov dialoga com a frase do pensador citada acima de maneira brilhante e o faz por mais de 400 páginas.
uma citação
.
MATRAGA NÃO É MATRAGA, não é nada. Matraga é Esteves. Augusto Esteves, filho do Coronel Afonsão Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto -- o homem -- nessa noitinha de novena, num leilão de atrás da igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores, do Córrego do Murici.
.
Na versão de língua inglesa lê-se:
.
MATRAGA IS NOT MATRAGA, or anything. Matraga is Êsteves. Augusto Êsteves, the son of Coronel Afonsão, of Pindaíbas and Saco-da-Embira. Or Mr. Augusto, Nhô Augusto -- the man -- on the everning of a novena, at the auction behind the church in the vilage of Our-Lady-of -Sorrows-of-the Creek-Muricí.
.
(...)
.
Na versão russa, por sua vez, lê-se:
.
Matraga -- nikakói on nié Matraga, nitchevó pokhójevo, Matraga -- on Esteves. Augusto Esteves, sýn polkójevo Estévessa, Bolchóvo Alfonso, u kotórovo pomiêstia v pindaíbas i v Saki-da-Embira. Libo Nhô Augusto -- kak zváli ievó v tu notch na autsióne, kotóry prokhodíl na zádniem dvrié za tsékoviu Bogomáteri Skorbiáschei, gdié tól'ko chto otslujýli deviatíny, a býlo éto v mestêtchke Corrego-de-Murici.
.
Como retroversão, teremos:
.
Matraga - ele não nenhum, nada disso, Matraga -- ele é Esteves. Augusto Esteves, filho do coronel Esteves, O Grande Afonso, que possui propriedades rurais em pindaíbas e no Saco-de-Embira. Ou Nhô Augusto - como o chamavam naquela noite no leilão, que se realizava no patio atrás da igreja de mãe-de-Deus Dolorosa, onde acabaram de celebrar as novenas, e isto ocorreu no lugarejo do Córrego-do-Murici.
.
(...)
.
lugar comum
.
> nenhuma língua é universal porque nenhuma língua é uma equação matemática: o que o autor pode dizer de universal (ideia) jamais será repetido do modo como deveria ser dito. do modo como foi dito (forma).
.
> se língua alguma é universal, nenhum povo é superior: cultura alguma é superior.
.
> verter guimarães rosa para o português é ao seu turno uma tarefa complicada. a língua de guimãraes rosa é outra e dizer isso é um lugar comum.
.
> uma região é tão universal quanto o universo.
.
na frase do pensador citado, a noção de tradução assume claramente caráter de alteridade. para uma noção de alteridade, o outro é diferente do mesmo porque tem suas peculiaridades e particularidades e não só a tradução como as línguas em si não escapam de tal dinâmica.
.
o trabalho de olga belov usa duas expressões-chaves: texto de língua de chegada e texto de língua de partida, que em sigla aparecem como tlc e tcp. em outras palavras: repetir algo em outra língua re-configura (desfigura?) a forma, traduttore traditore.
.
olga belov discute amplamente aquilo que pode ser compreendido como a tradução que assume caráter de transformação e, de outra forma: olga belov dialoga com a frase do pensador citada acima de maneira brilhante e o faz por mais de 400 páginas.
uma citação
.
MATRAGA NÃO É MATRAGA, não é nada. Matraga é Esteves. Augusto Esteves, filho do Coronel Afonsão Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto -- o homem -- nessa noitinha de novena, num leilão de atrás da igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores, do Córrego do Murici.
.
Na versão de língua inglesa lê-se:
.
MATRAGA IS NOT MATRAGA, or anything. Matraga is Êsteves. Augusto Êsteves, the son of Coronel Afonsão, of Pindaíbas and Saco-da-Embira. Or Mr. Augusto, Nhô Augusto -- the man -- on the everning of a novena, at the auction behind the church in the vilage of Our-Lady-of -Sorrows-of-the Creek-Muricí.
.
(...)
.
Na versão russa, por sua vez, lê-se:
.
Matraga -- nikakói on nié Matraga, nitchevó pokhójevo, Matraga -- on Esteves. Augusto Esteves, sýn polkójevo Estévessa, Bolchóvo Alfonso, u kotórovo pomiêstia v pindaíbas i v Saki-da-Embira. Libo Nhô Augusto -- kak zváli ievó v tu notch na autsióne, kotóry prokhodíl na zádniem dvrié za tsékoviu Bogomáteri Skorbiáschei, gdié tól'ko chto otslujýli deviatíny, a býlo éto v mestêtchke Corrego-de-Murici.
.
Como retroversão, teremos:
.
Matraga - ele não nenhum, nada disso, Matraga -- ele é Esteves. Augusto Esteves, filho do coronel Esteves, O Grande Afonso, que possui propriedades rurais em pindaíbas e no Saco-de-Embira. Ou Nhô Augusto - como o chamavam naquela noite no leilão, que se realizava no patio atrás da igreja de mãe-de-Deus Dolorosa, onde acabaram de celebrar as novenas, e isto ocorreu no lugarejo do Córrego-do-Murici.
.
(...)
.
lugar comum
.
> nenhuma língua é universal porque nenhuma língua é uma equação matemática: o que o autor pode dizer de universal (ideia) jamais será repetido do modo como deveria ser dito. do modo como foi dito (forma).
.
> se língua alguma é universal, nenhum povo é superior: cultura alguma é superior.
.
> verter guimarães rosa para o português é ao seu turno uma tarefa complicada. a língua de guimãraes rosa é outra e dizer isso é um lugar comum.
.
> uma região é tão universal quanto o universo.
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guimarães rosa,
OLGA BELOV
17.4.12
1.4.12
2012 (a)
#
e dizer que estava enlouquecendo desde ontem
ou levitar com o som da voz da amada
quando dizia nome de flores que gostava
para depois os nomes que não.
subir as escadas sem ar
sem ar deixar a moça após o amor
chegar ao clímax da casa e do gozo
do alto a visão das tulipas de 1985
na cama
ela desconsertada.
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tulipas em 1985
1985--2012 (b)
e tulipas líricas em 1985
e dizer que estava enlouquecendo desde ontem
ou levitar com o som da voz da amada
quando ela dizia o nome das flores que gostava
para depois os nomes que não.
subir as escadas sem ar
sem ar deixar a moça após o amor
chegar ao clímax da casa e do gozo
do alto a visão das tulipas de 1985
na cama
ela desconsertada.
e dizer que estava enlouquecendo desde ontem
ou levitar com o som da voz da amada
quando ela dizia o nome das flores que gostava
para depois os nomes que não.
subir as escadas sem ar
sem ar deixar a moça após o amor
chegar ao clímax da casa e do gozo
do alto a visão das tulipas de 1985
na cama
ela desconsertada.
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#,
as mesmas e outras,
mais tulipas
Hugh Selwyn Mauberley, Pound
Ode Pour De Selection De Son Sepulchre FOR three years, out of key with his time, He strove to resuscitate the dead art Of poetry; to maintain "the sublime" In the old sense. Wrong from the start-- No hardly, but, seeing he had been born In a half savage country, out of date; Bent resolutely on wringing lilies from the acorn; Capaneus; trout for factitious bait; ἴδμεν γάρ τοι πάν πάνθ', όσ' ένι Τροίη Caught in the unstopped ear; Giving the rocks small lee-way The chopped seas held him, therefore, that year. His true Penelope was Flaubert, He fished by obstinate isles; Observed the elegance of Circe's hair Rather than the mottoes on sun-dials. Unaffected by "the march of events," He passed from men's memory in _l'an trentiesme De son eage_; the case presents No adjunct to the Muses' diadem. (...)
29.3.12
Manhã de nevoeiro. O pescador levanta-se da esteira, olha pela fresta da casa o espaço branco e diz para a mulher. Hoje, não vou ao mar, com uma névoa assim até os peixes se perdem debaixo de água. Disse-o este, e, por iguais ou parecidas palavras, também o disseram os mais pescadores todos, duma margem e da outra, perplexos pela extraordinária novidade de um nevoeiro impróprio da época do ano em que estamos. Só um, que pescador de ofício não é, ainda que com os pescadores seja o seu viver e trabalhar, assoma a porta da casa como para certificar-se, diz para dentro, Vou ao mar. Por trás do seu ombro, Maria de Magdalena pergunta, Tens de ir, Jesus respondeu, Já era tempo, Não comes, Os olhos estão em jejum quando se abrem de manhã. Abraçou-a e disse, Enfim, vou saber quem sou e para o que sirvo, depois, com uma incrível segurança, pois o nevoeiro não deixava ver nem os próprios pés, desceu o declive que levava à água, entrou numa das barcas que ali se encontravam amarradas e começou a remar para o invisível que era o centro do mar.
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josé saramago,
nobel 1998,
o evangelho segundo ele mesmo
9.3.12
Brise Marine, Stéphane Mallarmé
Fuir! là-bas fuir ! Je sens que des oiseaux sont ivres
D´être parmi l´écume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retriendra ce coeur qui dans la mer se trempe
O nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l´ancre pour une exotique nature!
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l´adieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux qu´un vent penche sur les naufrages
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l´ancre pour une exotique nature!
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l´adieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux qu´un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots...
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!
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Stéphane Mallarmé
3.3.12
Quarta-feira de Cinzas, Eliot pela tradução do poeta Ivan Junqueira.
III
Na primeira volta da segunda escada
Voltei-me e vi lá embaixo
O mesmo vulto enrodilhado ao corrimão
Sob os miasmas que no fétido ar boiavam
Combatendo o demônio das escadas, oculto
Em dúbia face de esperança e desespero.
Na segunda volta da segunda escada
Deixei-os entrançados, rodopiando lá embaixo;
Nenhuma face mais na escada em trevas,
Carcomida e úmida, como a boca
Imprestável e babugenta de um ancião,
Ou a goela serrilhada de um velho tubarão.
Na primeira volta da terceira escada
Uma túmida ventana se rompia como um figo
E além do espinheiro em flor e da cena pastoril
A silhueta espadaúda de verde e azul vestida
Encantava maio com uma flauta antiga.
Doce é o cabelo em desalinho, os fios castanhos
Tangidos por um sopro sobre os lábios,
Cabelos castanhos e lilases;
Frêmito, música de flauta, pausas e passos
Do espírito a subir pela terceira escada,
Esmorecendo, esmorecendo; esforço
Para além da esperança e do desespero
Galgando a terça escala.
Senhor, eu não sou digno
Senhor, eu não sou digno
_______________mas dizei somente uma palavra.
Na primeira volta da segunda escada
Voltei-me e vi lá embaixo
O mesmo vulto enrodilhado ao corrimão
Sob os miasmas que no fétido ar boiavam
Combatendo o demônio das escadas, oculto
Em dúbia face de esperança e desespero.
Na segunda volta da segunda escada
Deixei-os entrançados, rodopiando lá embaixo;
Nenhuma face mais na escada em trevas,
Carcomida e úmida, como a boca
Imprestável e babugenta de um ancião,
Ou a goela serrilhada de um velho tubarão.
Na primeira volta da terceira escada
Uma túmida ventana se rompia como um figo
E além do espinheiro em flor e da cena pastoril
A silhueta espadaúda de verde e azul vestida
Encantava maio com uma flauta antiga.
Doce é o cabelo em desalinho, os fios castanhos
Tangidos por um sopro sobre os lábios,
Cabelos castanhos e lilases;
Frêmito, música de flauta, pausas e passos
Do espírito a subir pela terceira escada,
Esmorecendo, esmorecendo; esforço
Para além da esperança e do desespero
Galgando a terça escala.
Senhor, eu não sou digno
Senhor, eu não sou digno
_______________mas dizei somente uma palavra.
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eliot,
ivan junqueira
29.2.12
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Herman Melville
caminhar pelo parque:
a lição da caminhada e da canção.
e a naturalidade que todas as coisas têm.
a imagem das ruas, das cidades e das gentes.
DE solenidades.
de acordar cedo e solenidades.
de caminhar no parque e de solenidades.
DE solenidades e de caminhadas.
a lição da caminhada e da canção.
e a naturalidade que todas as coisas têm.
a imagem das ruas, das cidades e das gentes.
DE solenidades.
de acordar cedo e solenidades.
de caminhar no parque e de solenidades.
DE solenidades e de caminhadas.
25.2.12
Em ocasião dessa minha tumultuada quaresma e da Quaresma da Igreja que ainda acredito, pequena citação da santa de Ávila (1515, 1582 ), Livro da Vida.
Vê a grande cegueira dos prazeres, e como compra trabalhos com eles, mesmo para esta vida, e desassossego. Que inquietação! Quão pouca alegria! Quanto trabalho em vão!
Aqui não vê apenas as teias de aranha de sua alma e os pecados grandes, mas um pozinho que haja, por pouco que seja, porque o sol está muito claro. E assim, por muito que trabalhe uma alma para se aperfeiçoar, se esse Sol a toma de verdade, vê-se toda muito turva. É como a água que está num copo, pois se o sol não bater, fica muito límpida, mas, se bater, vê-se que está toda cheia de sujeira.
Essa comparação é ao pé da letra. Antes de estar a alma nesse êxtase, parece que tem cuidado em não ofender a Deus e que, segundo suas forças, faz o que pode. Mas, tendo chegado aqui, onde bate esse Sol de justiça que a faz abrir os olhos, vê tantas manchas que queria voltar a fechá-los. Porque ainda não é tão filha dessa águia poderosa para que possa olhar esse Sol cara a cara. Mas, por pouco que tenha os olhos abertos, vê-se toda turva. Lembra-se do verso que diz: "Quem será justo diante de Ti?"
Quando olha esse divino Sol, ofusca-lhe a claridade. Quando olha para si, o barro tapa seus olhos: cega está essa pombinha. Assim, acontece muitas e muitas vezes de ficar cega assim, totalmente, absorta, desvanecida por tantas grandezas que vê. Aí ganha-se a verdadeira humildade, para não se importar nem um pouco em falar bem de si ou que falem os outros. O Senhor reparte a fruta do jardim e não ela, e assim não pega nada em suas mãos. Todo o bem que tem dirige-se a Deus. Se diz algo por si, é para glória d'Ele. Sabe que ela não tem nada ali, e ainda que quisesse não poderia ignorar isso. Porque vê com os próprios olhos que, ainda que lhe pese, faz com que se fechem para as coisas do mundo e se mantenham abertos para entender verdades.
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santa teresa d'avila
30.1.12
1986
Beijando-a na estação sem metrô
dentro do livro do John Donne
ou beijando-a na biblioteca,
não no jardim do mosteiro
ou no pátio da faculdade do mosteiro,
beijando-a de longe:
na espera da sua chegada beijando-a na espera
e na chegada dela
beijando-a na chegada
ou não a beijando,
esperando ela na espera para o beijo e
na chegada dela
beijando-a na sua espera.
E depois que beijar
lá na sacada
deixa-la partir
para os que não a beija,
para os que não reza.
dentro do livro do John Donne
ou beijando-a na biblioteca,
não no jardim do mosteiro
ou no pátio da faculdade do mosteiro,
beijando-a de longe:
na espera da sua chegada beijando-a na espera
e na chegada dela
beijando-a na chegada
ou não a beijando,
esperando ela na espera para o beijo e
na chegada dela
beijando-a na sua espera.
E depois que beijar
lá na sacada
deixa-la partir
para os que não a beija,
para os que não reza.
25.1.12
mesmo tema com sutil variação.
![]() |
| Turris Sapientiae, 1470 |
não há muitos assuntos na literatura.
embora os cínicos dissimulem sempre nos seus ofícios de encher sacos com vento, de dançar com o éter ou o vazio que embora seja outro tema é uma fuga para que se não diga o que importa e é uma variação, portanto do nada e do medo ou ainda da incapacidade de dizer o que importa porque certamente é mais lucrativo ou importante para o status a imagem que a essência: o velho problema da doxa e episteme.
desde homero que as lutas são um tema. a amizade e o amor e o amor-de-amizade são os temas. desde cervantes que a amizade é um tema. que o amor é um tema e que a falta dele que leva a loucura é um tema. que a amizade é um tema. desde dante que o amor é um tema. que a amizade é um tema. desde ovídio que o amor é um tema. que a paixão é um tema. desde lorca no seu pranto por ignacio sánchez mejías que o amor é um tema. que amizade é um tema. que a paixão é um tema. desde yourcernar que a paixão é um tema. que a amizade é um tema. que o amor e a paixão são os temas. desde dostoiévski que o amor que salva é um tema. que a loucura é um tema. que a amizade é um tema. desde...
eu poderia enumerar um catalogo para lhes atravessar os horários das três refeiçoes do dia. o amor desde sempre é a questão da literatura e se Deus tem nome mais encarnado esse nome é amor. é um tema.
o mal na giesta do gilgamesh é uma variação do mesmo tema. da sua ausência-presença. certamente o mahabharata deve tratar do amor. o amor vende bastante, é o tema da moda, o assunto de sempre.
21.1.12
"memento pulvis quia homo es, et in hominem reverteris" padre antónio vieira, sermão de quarta-feira de cinzas.
manoel joaquim de carvalho jr. no livro que antecede o que deveria ser chamado de marco nacional, em busca do ser, deus e liberdade, propõe amplo e orgânico estudo (como diz franco polato, na época professor na universidade de bologna). o seu programa quer perscrutar aquilo que o próprio título propõe: deus e liberdade, bem como todos os seus desdobramentos de afirmação e negação.
o esquema segundo polato segue da seguinte forma:
liberdade - universo material - Deus
tempo > espaço> movimento > casualidade > mundo > homem >
consciência > conhecimento > reflexão > criação > nada > mal >
morte > vida> ato > vontade > verdade > história > dialética > ser
no capítulo dedicado à morte cito a tal anotação de manoel joaquim de carvalho jr. que tanto inquieta e que quero transcrever :[ vale dizer que seu pensamento em torno do que entendemos por morte se movimenta enquanto crítica ou aquilo que aproxime-se (e ultrapasse, transborde ou extrapole) à crítica, -- uma reflexão -- ao modo de "heidegger" pensar Deus e o mundo e pensar "o homem" para morte ]:
é como dizer: a morte é um fim para a vida não para o amor uma vez que "o amor é forte, é como a morte." (Ct 8,6)
manoel joaquim de carvalho jr. no livro que antecede o que deveria ser chamado de marco nacional, em busca do ser, deus e liberdade, propõe amplo e orgânico estudo (como diz franco polato, na época professor na universidade de bologna). o seu programa quer perscrutar aquilo que o próprio título propõe: deus e liberdade, bem como todos os seus desdobramentos de afirmação e negação.
o esquema segundo polato segue da seguinte forma:
liberdade - universo material - Deus
relações:
tempo > espaço> movimento > casualidade > mundo > homem >
consciência > conhecimento > reflexão > criação > nada > mal >
morte > vida> ato > vontade > verdade > história > dialética > ser
no capítulo dedicado à morte cito a tal anotação de manoel joaquim de carvalho jr. que tanto inquieta e que quero transcrever :[ vale dizer que seu pensamento em torno do que entendemos por morte se movimenta enquanto crítica ou aquilo que aproxime-se (e ultrapasse, transborde ou extrapole) à crítica, -- uma reflexão -- ao modo de "heidegger" pensar Deus e o mundo e pensar "o homem" para morte ]:
"Se não morrêssemos, não amaríamos."
é como dizer: a morte é um fim para a vida não para o amor uma vez que "o amor é forte, é como a morte." (Ct 8,6)
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padre antónio vieira
16.1.12
24.12.11
como quando vi
pela terceira vez o mar
pela terceira vez o mar
ou aviões num porto de brasília
das águas do mar em brasília
diziam exatamente o estado de
espírito a ser apreendido:
um gato preto na metáfora do
guimarães rosa (por exemplo),
guimarães rosa
é escuro e não está lá
(no entanto)
o mar é visto do quarto escuro
ou aviões que boiam no mar-ar
e quando você faz a volta
ou quando a janela vista de cima
esta embaçada
esta embaçada
tudo lhe parece um pouco mais
nítido.
nítido.
15.12.11
Dois parágrafos de um longo estudo sobre a arte do Fiódor Mikháilovich Dostoiévski (1821-1881) tratando dos aspectos centrais na obra desse Homem inspirado pelo Transcendente ( Deus, a saber)
Todos os romances de Dostoiévski versam sobre a relação do homem com Deus. Em Crime e Castigo, o tema principal é o mistério da ressurreição de um homem morto pelo pecado; em O idiota, é o mistério da natureza divina de Cristo como condição única e necessária de sua missão salvadora (nem o homem mais "positivamente belo" tem a condição de tornar-se salvador para os próximos); e Os demônios, é o mistério da Encarnação da Palavra -- é verdade que esse permaneceu basicamente nos manuscritos preparatórios do romance --, porque o texto principal manisfestou-se no tema da essência funesta da impostura e da substituição da verdade divina por uma "teoria" terrena qualquer; em O adolescente, segundo precisa observação de T. A. Kassáktina, trata-se das relações filias do homem com o Pai: da dependência servil em face do mais sórdido símbolo material da ligação entre os homens (o dinheiro), acarretando a perda dessas relações e o ganho da liberdade com o seu restabelecimento (embora, é claro, todos os temas acima referidos estejam presentes em diferentes graus em todos os romances).
No romance Os irmãos Karamázovi, testamento de Dostoiévski, o tema principal é a descida do Espírito Santo sobre os homens. Como escreve o teólogo russo V. N. Losski, a causa de Cristo está voltada para a natureza humana em seu todo, a causa do Espírito Santo, para cada pessoa humana em separado, ressaltando-a "pela marca da relação pessoal e singular com a 'Santíssima Trindade' isto é, revelando ao homem a verdade e permitindo-lhe entender que 'a vida é o paraíso' ", como diz o stáertz Zossíma. Essa trajetória é percorrida no romance pelas personagens Márkel, Zossíma, o visitante mistérioso, Dimitri, Ivan (em perspectiva) e, é claro, Aliócha. Segundo o plano de Dostoiévski, eram precisamente a trajetória e o exemplo de Aliócha que deviam tornar-se o ponto de referência para todas as futuras gerações de leitores em sua vida autêntica durante a leitura do romance. É precisamente assim mesmo que eu compreendo a afirmação peremptória da modalidade de tempo -- o "momento presente" --, que no prefácio ao romance Dostoiévski endereça ao leitor concreto:
O romance principal é o segundo: a atividade de meu herói já em nosso tempo, precisamente no tempo corrente de nossos dias.
#
Sobre Karen Stepanyan
vice presidente da Sociedade Russa de estudos de Dostoiévski, redator-chefe da revista-almanaque Dostoiévski i mirovaia kultura (Dostoiévski e a cultura mundial), representante da Rússia na International Dostoievski Society (ISD) , membro da União de Escritores da Rússia, professor do Instituto de Literatura Univeral e colaborador da revista Znâmia.
1.12.11
28.11.11
parlez-vous français?
DIRETORA DO MUSEU RODIN DE PARIS VISITA SALVADOR E FAZ PALESTRA SOBRE GESTÃO MUSEOLÓGICA NO PALACETE DAS ARTES
Na próxima quarta-feira, dia 30 às 17h a Diretora do Museu Rodin de Paris, Aline Magnien que chega pela manhã em Salvador, participará de debate com os professores José Antonio Saja e Heloísa Helena Costa na Sala de Arte Contemporânea do Palacete das Artes Rodin Bahia sobre as questões do Mito e a influência da Antiguidade Clássica no processo criativo de Rodin.
No dia 1 de dezembro ( quinta-feira ) das 9h às 12h ela fará uma visita técnica ao acervo do Palacete das Artes Rodin Bahia e às 17h faz palestra para o público sobre “ Gestão Museólogica no Museu Rodin Paris , na Sala de Arte Contemporânea do Palacete.
A entrada é franca para as duas atividades.
16.11.11
o mesmo aceno e de outra forma (aceno a siena)
Catarina de siena desconhecia as letras
Catarina de siena escrevia para seu papa
(ditava)
Catarina de siena não confudia hóstia sem a presença do DEUS
que ela amava
.
ela sabia onde deus estava e
onde Deus não estava
24.10.11
22.10.11
trecho da introdução ao livro do profeta baruc (bíblia teb) + 2 passagens desse profeta de notável gênio.
>
#
"Direis:
Ao Senhor nosso Deus pertence a justiça, mas a nós, a vergonha no rosto, como hoje se vê! A vergonha para o homem de Judá e os habitantes de Jerusalém, para nossos reis, nossos chefes, nossos sacerdotes, nossos profetas e nossos pais. " Br 1, 15-16
e
"Onde estão os que se divertem com
os pássaros do céu,
os que põem em reserva a prata e o
ouro,
nos quais os homens puseram sua
confiança,
eles, cuja fortuna não tem limites?
Onde estão os que lavram a prata e
fazem dela o objeto de seu cuidado,
eles, cujas obras superam a
imaginação?" Br 3, 15-18
"Você já leu Baruc? Era um gênio notável!" (La Fontaine, segundo Louis Racine). Foi na Vulgata que La Fontane leu Baruc, por ocasião de um ofício de trevas ao qual Jean Racine o havia levado. Não podendo deixar de admirá-lo, La Fontaine perguntou ao amigo: "Notável gênio esse Baruc: quem era ele?"
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"Direis:
Ao Senhor nosso Deus pertence a justiça, mas a nós, a vergonha no rosto, como hoje se vê! A vergonha para o homem de Judá e os habitantes de Jerusalém, para nossos reis, nossos chefes, nossos sacerdotes, nossos profetas e nossos pais. " Br 1, 15-16
e
"Onde estão os que se divertem com
os pássaros do céu,
os que põem em reserva a prata e o
ouro,
nos quais os homens puseram sua
confiança,
eles, cuja fortuna não tem limites?
Onde estão os que lavram a prata e
fazem dela o objeto de seu cuidado,
eles, cujas obras superam a
imaginação?" Br 3, 15-18
19.10.11
Essa coisa de lascar pedras... e a faísca... a fumaça na usina entre as palavras.... é primavera e não há Sol.... sem Adma ou museu ou um filme do Bergman..
-
nada
ainda
se
diz
o que soa
volteia
irresol
vível
algaravia
conversa
desconexa
na treva
riscamos
no chão
incerto
signo
nada
ainda
se
diz
o que soa
volteia
irresol
vível
algaravia
conversa
desconexa
na treva
riscamos
no chão
incerto
signo
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(casa das musas),
2007,
diz,
franscisco kaq
5.10.11
salomão que me perdoe (ecl 1,9) mas alguma coisa aconteceu (e está acontecendo: se você está em salvador visite o mam) na capela que antes era propriedade beneditina (como quase tudo que está nessa cidade de algum modo pertence aos beneditinos: se você conhece um pouco de história sabe disso) com a exposição dessa tal de beatriz franco.
"sob o mesmo céu" é um recorte de algo muito vasto e também muito particular a todos nós. essa instalação e exposição fotográfica é uma provocação à diversidade pela maneira da poesia que está na imagem, fanopéia, como no dizer do ezra pound.
debaixo do céu há o humano e acima dele o que não cabe na fala, na escrita, no logos.
o problema é que salomão se limitou a delimitar a existência das coisas debaixo do sol e sob a noite de beatriz um universo se abre e se re-vela pela maneira da beleza: abrindo espaço para o advento da arte que ousa dizer o outro e dizer o mesmo.
e é nessa ousadia do outro e do mesmo que alguma coisa (pelo modo da fricção) ocorre. a fotografia no olhar de beatriz franco revela uma verdade muito antiga: a beleza do sagrado no céu que está aí para tudo o que sob ele se movimenta.
no caderninho onde se dá ler alguma coisa sobre a exposição a própria beatriz reafirma o mistério da imagem e coloca (problematizando) a questão da origem lançando luz no velho desafio do começo de tudo com o seu recorte do céu-poesia e igualmente céu-mistério.
o sujeito que se dirige até a capela do mam é convidado a desvendar essa exposição escura sob o céu da beatriz. a fotografia do céu é posta no teto da capela-museu e no chão da entrada deste mesmo lugar está a provocação a todos que se permitem a esse momento de rara e deliciosa fruição: "estamos todos sob o mesmo céu".
assim sendo, acolhamos o convite para igualdade da nossa origem divina debaixo do céu de beatriz franco.
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beatriz franco,
sob o mesmo céu
30.9.11
Carta de Eça de Queiroz ( Á Senhora Condessa de Ficalho), Londres, 21 de Outubro 1885.
__Tenho sido ultimamente tão abandonado pelos meus amigos de Lisboa -- ou pelo menos d'aquelle bairro de Lisboa onde eu mais desejo ter amigos -- que, se possuisse uma canoa e um papagaio, podia considerar-me realmente como um Robinson Crusoè, desamparado na sua ilha. Há, é verdade, em roda de mim, uns quatro ou cinco milhões de sêres humanos. Mas que é isso? As pessoas que nos não interessam e que se não interessam por nós são apenas uma outra fórma da paisagem, um mero arvoredo um pouco mais agitado. São, verdadeiramente, como as ondas do mar, que crescem e morrem, sem que se tornem differenciaveis umas das outras, sem que nenhuma attraia mais particularmente a nossa sympathia emquanto rola, sem que nenhuma, ao desapparecer, nos deixe uma mais especial recordação. Ora estas ondas, com o seu tumulto, não faltavam de certo em torno do rochedo de Robison -- e elle continua a ser, nos collegios e nos conventos, o modelo lamentavel e classico da solidão.
__Não sei se este abandono provém da inhabilidade que os meus amigos têm de continuar por muito tempo as suas sympathias -- se da incapacidade que eu tenho de reter por muito tempo as sympathias dos meus amigos. Seja como fôr, o facto permanece -- e eu aqui me tenho achado, minha cara snr.ª Condessa, esquecido no meu rochedo, sem canoa e sem papagaio!
__Ora que póde um homem fazer, em cima d'um rochedo -- senão reflectir? E assim me tenho entregado, exclusivamente, a essa sombria occupação...
__Reflecti que o mundo e a gente que compõe, à maneira que a civilisação vae sendo mais complicada e mais encombrante, se vão tornando mais duramente egoistas; e se outr'ora, no movimento mais calmo da vida, era possível formarem-se relações e grupos de relações, ligadas por uma interessante communhão de gostos e d'iéas, onde o espirito e o coração encontrassem tudo o que necessitam para viver -- hoje, n'esta acceleração da existencia, não há tempo, nem vagar, nem dedicação bastante para que esses grupos se formem, com sufficiente encanto, ou, apenas formados, logo se desmancham, e cada um, na debandada que nos leva, tem de contar simplismente comsigo mesmo -- e com o seu cão...
__Reflecti ainda que a Vida Exterior ia, com estes annos andados, perdendo para mim todos os attractivos. Viajar é (como a snr.ª Condessa sabe e sei que sente) deixar um sitio onde se estava comendo, num hotel triste, um boeuf-à-la-mode triste, para ir através da poeira, confusão e bagagem, comer, n'outro hotel mais triste, outro boeuf-à-la-mode mais triste; e as igrejas, as lojas, os homens, sendo por toda a parte eguaes, não vale a pena partir para ir apenas, e em definitiva, sentir a melancolia infinita que inspiram as multidões estranhas.
__Posta de lado as viagens -- restava-me talvez isso a que se chama a Sociedade; mas ella, já agora, realmente pouca occupação me poderia offerecer: pessimamente educado, não sabendo jogar o whist nem valsar, não me sendo já facil flirtar, porque o espirito vae perdendo a sua ligeireza e a sua bravura, eu via approximar-se o momento em que teria de enfileirar n'essa classe de solteirões, majores reformados do sentimento, que se encostam nas salas ás humbreiras das portas, a confiar o bigode, com a sua melancolia e o seu chaque, ambos debaixo do braço.
__Que me restava ainda da vida exterior? A acção? Mas nós vivemos n'um paiz tão monotono que nem n'elle se conspira: e mesmo talvez não valesse a pena mandar fazer uma capa negra e reunir-me com alguns sujeitos de barbas, n'um subterraneo, para tramar em voz cava a destruição da Carta e do Gremio! Que mais, então? A minha modestia nunca se acostumaria a tão grande éclat, além de que os regulamentos da policia são muito severos com os prophetas. Procurar ser ministro? A minha vaidade nunca me permittiria descer a tanto.
__Reflecti ainda que nem mesmo os meus companheiros de mocidade -- porque todos, pouco a pouco, tinham creado o seu ninho e viviam fechados dentro d'elle. Acontecia-me, ultimamente, indo pela rua, mergulhado na gola do meu paletot, encontrar um d'esses amigos e pedir-lhe, como uma obra de caridade, que viesse jantar comigo ao restaurante: e o meu amigo, tendo-me olhado com olhos chammejantes e indignados, como se eu lhe propuzesse uma infamia, voltava bruscamente as costas, e abalava a correr para o insubstituivel conforto da sua sopa de familia... Eu, noentanto, lá seguia, solitario, para o restaurante, onde, invariavelmente, o garçon, atirando o guardanapo para baixo do braço, me dizia com um sorriso abominavel e diabolico -- << Nous avons aujourd'hui, monsieur, un boeuf-à-lamode qui est exquis!...>>
__Finalmente, reflecti que não restava senão a minha Arte. Mas, como tão profundamente se diz nos livros de cozinha -- pour faire un civet de lièvre il faut d'abord un lièvre, et puis une casserole. Ora para fazer tranquillamente Arte -- é necessario pelo menos uma mesa e um fogão, e depois ainda outra mesa, pour mettre dessus le potage. De que vale porém ter estes utensilios de trabalho -- se se não tem, ao mesmo tempo, essa suave e amigacompanhia, sem a qual o fogão, por mais carvão que se lhe deite, nunca dá calor, e a mesa, por mais luzes que se accendam em torno da sopa, parece sempre sombria?
__Nada pois me restava a não ser a solidão...
__Estava eu assim reflectindo no meu rochedo, e reflectindo alto, n'um monologo, como é costume dos que fazem romances -- quando aconteceu que uma pessoa, de todo o ponto excellente e cheia de caridade, ouviu os meus queixumes...
-- E assim é que eu posso agora, senhora Condessa, annunciar-lhe o ajuste do meu casamento, com a filha da senhora Condessa de rezende, D. Emilia de Castro.
__Depois d'isto, eu não devia talvez acrescentar mais nada. Mas, antes de concluir este in-folio, não resisto á tentação de lhe pedir, minha carasenhora Condessa, que permitta aos seus bons desejos que me acompanhem n'esta nova existencia: elles teriam para mim um duplo valor: vindo d'uma pessoa tão superiormente dotada pelo espirito e pelo coração, elles não deixariam de me porter bonheur. E depois, provar-me-iam a mim mesmo que eu não sou inteiramente incapaz de reter por muito tempo a sympathia dos meus amigos.
__ Creia-me, snrª Condessa, et nunc et semper, com todo respeito
__De V.Ex.ª muito agradecido e muito dedicado
Eça de Queiroz.
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na solidão das coisas,
solidão
29.9.11
Camões e a arte de destilar doçuras...
O recado que trazem é de amigos,
Mas debaixo o veneno vem coberto;
Que os pensamentos eram de inimigos,
Segundo foi o engano descoberto.
Ó grandes e gravíssimos perigos!
Ó caminho de vida nunca certo:
Que aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a vida tão pouca segurança!
No mar tanta tomenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um franco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
Mas debaixo o veneno vem coberto;
Que os pensamentos eram de inimigos,
Segundo foi o engano descoberto.
Ó grandes e gravíssimos perigos!
Ó caminho de vida nunca certo:
Que aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a vida tão pouca segurança!
No mar tanta tomenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um franco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
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Salvador - BA, Brasil
31.8.11
TER o tempo nas costas e
TER o tempo.
TER a vida e
o tempo
o tempo para vida e
o tempo pára a vida,
ter a espera nas costas
para que ela viva
(viva na memória)
ter a espera dela
e nela um moinho
casa e moinho:
moinho ou
tempo nas coisas.
TER o tempo.
TER a vida e
o tempo
o tempo para vida e
o tempo pára a vida,
ter a espera nas costas
para que ela viva
(viva na memória)
ter a espera dela
e nela um moinho
casa e moinho:
moinho ou
tempo nas coisas.
27.8.11
22.8.11
Soneto Já Antigo
Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não o sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de
Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes...
que eu nada que tu digas acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,
Embora não o saibas, que morri...
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importará... Depois vai dar
a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não o sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de
Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes...
que eu nada que tu digas acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,
Embora não o saibas, que morri...
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importará... Depois vai dar
a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!
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fernando pessoa
21.8.11
15.8.11
contra-corrente.
para dizer
o modo
exato
de como
seguir
aquilo
ou
pelo modo
de ser o
mote
que a palavra
diz
(o que é)
então
ela
reporta
ela
mes-
ma
dita
ou a di-
ta
palavra
no mov
mento de
entra-da
e toda
iden-
tica
na saí-
da.
o modo
exato
de como
seguir
aquilo
ou
pelo modo
de ser o
mote
que a palavra
diz
(o que é)
então
ela
reporta
ela
mes-
ma
dita
ou a di-
ta
palavra
no mov
mento de
entra-da
e toda
iden-
tica
na saí-
da.
11.8.11
Argumento em Duns Scotus (Opus Oxoniense IV, d. 43, q. 2) sobre a felicidade, sobre a imortalidade também.
"Ademais, é conhecido naturalmente que uma espécie inteira não é carente de seu fim. Pelo menos este é atingido em algum indivíduo. Ora, é conhecido naturalmente que a felicidade é o fim da espécie humana. Portanto, é também conhecido naturalmente que o homem pode consegui-la pelo menos em algum indivíduo. Ora, não pode consegui-la nesta vida por causa de múltiplas misérias que a acompanham, tais como as vicissitudes da fortuna, a fraqueza do corpo, a imperfeição do saber e da virtude, a instabilidade e fadiga no exercicio do ato de perfeição. De tal maneira que nenhuma operação, por mais que seja agradável no início, pode ser sempre agradável. Até mesmo, se ela se torna fastidiosa, será agrádavel cessá-la. Ora, é conhecido pela razão natural que a operação que torna o homem feliz não é desagradável nem pode ser possuída apenas pela alma separada do corpo, pois em tal caso o homem não atingiria o seu fim. Portanto, será possuída noutra vida e pelo todo conjunto de corpo e alma. Parece, por conseguinte, que pela razão natural se conclui, pelo menos, em que coisas o homem alcança o seu fim."
9.8.11
+ 1 poema c/ lrp,. da cidade. sobre a cidade.
#
a cidade é um dia de chuva
me ocorre o refúgio dos parapeitos
me ocorre a chuva e a cidade, me ocorre
um verão menor a sobrevir
vir o sol e o dia, vir
ameno, à boca de boas novas,
a cidade é um dia de contas:
é amorfo o calendário das mudanças,
é um rio a cidade ou um dia de chuva.
a cidade é um dia de chuva
me ocorre o refúgio dos parapeitos
me ocorre a chuva e a cidade, me ocorre
um verão menor a sobrevir
vir o sol e o dia, vir
ameno, à boca de boas novas,
a cidade é um dia de contas:
é amorfo o calendário das mudanças,
é um rio a cidade ou um dia de chuva.
6.8.11
3.8.11
A Carta, Mario Quintana
Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria...
Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas, com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...
Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria...
Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas, com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...
Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!
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outros mares
31.7.11
way to go o círculo!
durante o banho eu pensava passar num mercado para levar refrigerantes ou cerveja ou um salgadinho para ver o show do círculo. é que acho tudo muito caro nesses lugares. ir ver o círculo não quer dizer necessariamente entrar para o círculo de gastadores. durante o show precisei administrar uma porção de odores. fumaças que mudavam de textura quando a policia passava: indo do mais natural ao mais industrializado (eu observava os espectadores).
poucas vezes na vida eu tive aquela sensação de estar empurrando minha visão de mundo para outro lugar diferente: alargando assim aquilo que eu acreditava para o mesmo e para outro. a banda o círculo me pareceu bastante religiosa na medida em que uma banda de rock pode ser assim desejada. tal qual santa teresa d'ávila na sua erótica do sagrado nos amplia o ver o mundo empurrando nossas opiniões para outro lugar a banda de rock do concerto no parque da cidade perto da minha casa empurrou meu ver as coisas para muitas outros territórios, inclusive o sagrado, o místico.
o mundo é um círculo e o show era cheio de círculos: um rapaz com uma mochila onde se dava ler pearl jam segurava o dvd do david bowie nas mãos e comentava com os seus algo sobre beleza e qualidade. o rapaz que esbarrou em mim disse que avó dele cantava melhor. era um homem mais velho e pegava latas de cerveja. outros cantavam e falavam de amor e as fumaças seguiam sem nada reclamar. de minha parte tudo pareceu me acenar para a diversidade. um circulo nunca é diverso, é tautológico. esse circulo pareceu me cheio de outros que me remetiam a outros que por sua vez não se satisfaziam com os mesmos dando sempre e mais para outros e outros e outros. ir até o círculo.
poucas vezes na vida eu tive aquela sensação de estar empurrando minha visão de mundo para outro lugar diferente: alargando assim aquilo que eu acreditava para o mesmo e para outro. a banda o círculo me pareceu bastante religiosa na medida em que uma banda de rock pode ser assim desejada. tal qual santa teresa d'ávila na sua erótica do sagrado nos amplia o ver o mundo empurrando nossas opiniões para outro lugar a banda de rock do concerto no parque da cidade perto da minha casa empurrou meu ver as coisas para muitas outros territórios, inclusive o sagrado, o místico.
o mundo é um círculo e o show era cheio de círculos: um rapaz com uma mochila onde se dava ler pearl jam segurava o dvd do david bowie nas mãos e comentava com os seus algo sobre beleza e qualidade. o rapaz que esbarrou em mim disse que avó dele cantava melhor. era um homem mais velho e pegava latas de cerveja. outros cantavam e falavam de amor e as fumaças seguiam sem nada reclamar. de minha parte tudo pareceu me acenar para a diversidade. um circulo nunca é diverso, é tautológico. esse circulo pareceu me cheio de outros que me remetiam a outros que por sua vez não se satisfaziam com os mesmos dando sempre e mais para outros e outros e outros. ir até o círculo.
26.7.11
Anotações, 1942-1948.
#
Dormir ou sonhar, dizeis, e por sonhar, meu príncipe, entendeis sem dúvida mais ou menos o equivalente a viver. Mas se é dormir, é justo que repouseis após tantas insônias no terraço de Elsinor. Em caso de sonhar, porque temeis os sonhos, vós que temeis tão pouco os fantamas?
Dormir ou sonhar, dizeis, e por sonhar, meu príncipe, entendeis sem dúvida mais ou menos o equivalente a viver. Mas se é dormir, é justo que repouseis após tantas insônias no terraço de Elsinor. Em caso de sonhar, porque temeis os sonhos, vós que temeis tão pouco os fantamas?
Marguerite Yourcenar, Peregrina e Estrageira
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marguerite yourcenar
16.7.11
Marcadores:
cristo por são joão da cruz.
26.6.11
1985
e tulipas líricas em 1985
e dizer que estava enlouquecendo desde ontem
ou levitar com o som da voz da amada
quando ela dizia o nome das flores que gostava
para depois os nomes que não.
subir as escadas sem ar
sem ar deixar a moça após o amor
chegar ao clímax da casa e do gozo
do alto a visão das tulipas de 1985
na cama ela desconsertada.
e dizer que estava enlouquecendo desde ontem
ou levitar com o som da voz da amada
quando ela dizia o nome das flores que gostava
para depois os nomes que não.
subir as escadas sem ar
sem ar deixar a moça após o amor
chegar ao clímax da casa e do gozo
do alto a visão das tulipas de 1985
na cama ela desconsertada.
24.6.11
anatômico, e
"...Doravante, quando o homem estremece na alienação e o
mundo o angustia, ele levanta o olhar (para a direita ou
para esquerda, pouco importa) e avista uma imagem... "
Martin Buber, Eu e Tu
Da garganta
_________ao estômago e
até a língua até as pálpebras
lá: na laringe
__da planta nos pés à porta,
chaga - calota - o Nome
orante da minha infância
sonhos de ver Cultura
de ver avanço;
______Sonho no estômago
das entranhas,
joelhos e
o verso esquecido na Esperança
e o que a mão apalpa,
fluído.
18.6.11
3.6.11
26
#
tenho 26 anos agora
tenho meu poema e minha idade
nela escrevi um lema com letras largas:
o número é importante
e a vida também
tenho 26 anos agora
tenho meu poema e minha idade
nela escrevi um lema com letras largas:
o número é importante
e a vida também
2.6.11
Do modo como não se quer a bondade
Y com sua enorme inteligência compreensiva, dedicando-se a não ser humana, no sentido em que ser humana é também ter violências e defeitos. Dedica-se a compreender perdoando os outros. Aquele coração está vazio de mim porque precisa que eu seja admirável. Todos recorrem a ela quando estão com algum conflito e ela, "a consoladora oficial", entende. Minha grande altivez: preciso ser achada na rua.
Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo, 14 de junho, 1969.
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Soliloquio XIII
28.5.11
Khliebnikov ou a prefiguração da escultura sonora.
Eu vi
Um vivo
Sol
Ou tom no
Outono
Só no
Sono
Azul.
Enquanto
Do canto
Dos teus calcanhares
Calcas os ares
Para o novelo
Da nebulosa,
Teu cotovelo
Em ângulo alvo
Alteando aos lábios.
Abril,
Abrir
A voz
As provas
De
Deus.
Consonha
Em vôo
Aberto
O abeto,
Colhe os
Olhos
Azuis
Com os laços
Das sobrancelhas
E dos pássaros
Cerúleos.
No anil
Há mil.
1919
Tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman
Um vivo
Sol
Ou tom no
Outono
Só no
Sono
Azul.
Enquanto
Do canto
Dos teus calcanhares
Calcas os ares
Para o novelo
Da nebulosa,
Teu cotovelo
Em ângulo alvo
Alteando aos lábios.
Abril,
Abrir
A voz
As provas
De
Deus.
Consonha
Em vôo
Aberto
O abeto,
Colhe os
Olhos
Azuis
Com os laços
Das sobrancelhas
E dos pássaros
Cerúleos.
No anil
Há mil.
1919
Tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman
21.5.11
2
repara teu corpo,
tramas de 1 bilhão de hiatos,
diz
é como a bola que a neve lança
é como neve daquela lança
daquela época
daquele infante
repara a dança
repara e canta:
lança teu corpo daquela ponte
diz o teu nome em
tom e
quando cola da neve
cola na lança
o teu corpo
naquela banda
do mundo
repara a dança enquanto diz
a bola a neve
repara a sombra
que deixa bem leve
encanta encanta encanta
repara a prece homem
homem
repara a idade daquela era
lança teu corpo daquela prancha
mergulha, desce, afunda
repara o verso que disse o cego
repara o eco daquele velho
repara o mapa o catalogo
check in
repara. repara.
tramas de 1 bilhão de hiatos,
diz
é como a bola que a neve lança
é como neve daquela lança
daquela época
daquele infante
repara a dança
repara e canta:
lança teu corpo daquela ponte
diz o teu nome em
tom e
quando cola da neve
cola na lança
o teu corpo
naquela banda
do mundo
repara a dança enquanto diz
a bola a neve
repara a sombra
que deixa bem leve
encanta encanta encanta
repara a prece homem
homem
repara a idade daquela era
lança teu corpo daquela prancha
mergulha, desce, afunda
repara o verso que disse o cego
repara o eco daquele velho
repara o mapa o catalogo
check in
repara. repara.
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para rito
28.4.11
O mar é meu, creiam. ---------------- o mar é meu, creiam.
É seu o mar, ------ é seu o mar,
dele o mar é -------------------- dele o mar é
como o mar --------- como o mar
que era seu que era seu
e é dele ------------------------------------------ e é dele
o mar é quanto o mar é quanto
------------------------------o mar pertença o mar pertença
ao dia ao dia ao dia ao dia ao dia ao dia ao dia ao dia ao dia
o mar é meu. ----- o mar é meu. -------------- o mar é meu.
18.4.11
Tempo da pedra dispor-se a florescer...... É tempo do tempo ser.. É tempo.
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3.4.11
25.3.11
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