29.8.16

VIAGEM PARA SÍRIA

É obsceno
o silêncio ou
os braços cruzados
daqueles que podem fazer algo
pelo povo sírio.

Todavia,
animais infelizes
amontoam
bombas
sobre bombas.

26.5.16

FEM STROFER TILL THOREAU, TOMAS TRANSTRÖMER

Ännu en har lämnat den tunga stadens
ring av glupska stenar. Kristallklart salt är
vattnet som slår samman kring alla sanna
                         flyktingars huvud.
I en långsam virvel har tystnad stigit
hit från jordens mitt, att slå rot och växa
och med yvig krona beskugga mannens
                            solvarma trappa.
                             *
Foten sparkar tanklöst en svamp. Ett åskmoln
växer stort vid randen. Likt kopparlurar
trädens krökta rötter ger ton och löven
                         skingras förskrämda.
Höstens vilda flykt är hans lätta kappa,
fladdrande tills åter ur frost och aska
lugna dagar kommit i flock och badar
                              klorna i källan.
                             *
Trodd av ingen går den som sett en geysir,
flytt från stenad brunn som Thoreau och vet att
så försvinna djupt i sitt inres grönska,
                            listig och hoppfull.

17.5.16


4.4.16

HIROSHIMA MON AMOUR,
ALAIN RESNAIS/MARGUERITE DURAS













12.3.16

COISAS QUE REALMENTE TIRAM A PAZ DAS PESSOAS

Corrupção;

Caos civil;

Inflação;

Racismo;

Violência;

Impunidade;

Desemprego;

Crise hídrica;

Colapso econômico;

Terrorismo de Estado;

Violência contra a mulher;

Educação que não educa;

Descaso com as escolas;

Descaso com os estudantes;

Descaso com os professores;

Crise no saneamento básico;

Hospitais que não funcionam;

Genocídio de povos indígenas;

Desperdício dos recursos públicos;

Preconceito de gênero promovido pelo Estado.

18.1.16

É ISTO UM POEMA?

I

Que tem a palha em comum
com o Grão?
Indaga ao Tempo e
Indaga ao vento:
como pode o pós-nazismo e
como pode o analfabetismo?

Que tem a crise em comum
com tua ira?
Tua ganância ou
que tem a morte daquelas crianças
em comum ao
teu argumento por justiça?

II

Anja Spiegelman desistiu.
Primo Levi desistiu?
Primo Levi
Primo Levi
É isto um Poema?
Indaga ao tempo e
Indaga ao vento
Na era pós-Beleza
Indaga
Indaga.

17.1.16

Aoi Shiori, Galileo Galilei

なに ページも ついやして つづられた ぼくらの きぶん
どうしてか いちぎょうの くうはくを うめられないおしばなは しおり さんで きみと ころがす つかいすての じてんしゃ
わすれかけの れんがを つみあげては くずした

イコールへと ひきずられていく こわい くらいに あおい そらを
あそび つかれた ぼくらは きっと おもいだす ことも ない

そうやって いまは ぼくの ほうへ おしつける ひざしの たば
まだ ふたりは すぐ そこに いるのに「どうか また あえます ように」  なんて
どうかしてる みたい

いち ページ めくるての ひら くちびるで むすんだ ミサンガ
ねぇ きょうも かわらない きょうで あめ ふれば でんわも できるよ
そうやって いまは きみの ほうへ (いつのまにか きれた ミサンガ)
おしつける ぼくの やさしさを (でも なぜか いえない まま だよ)
ほんとう どうかしてる みたい

どれか ひとつを えらべば おとを たてて こわれる
それが あい だ なんて おどけて きみは わらってた

まにあって よかった まちは しらない ふりを きめて ねむった
わすれかけの れんがを つみあげた ばしょに ゆこう

うみを みわたす さかを かけのぼって こわい くらいに あおい そらと
みぎてに サイダー ひだりては ずっと きみを さがしている

そうやって ふさいだ りょうの てで だきしめている はるの かぜ
まだ じかんは ぼくらの もので「いつか、わすれてしまう きょう だね」なんて
いわないで ほしいよ

そうやって “いま”は ぼくの ほうへ といつめる ことも なくて
まだ ふたりは すぐ そこに いる だろう 「そうだ、くうはくを うめる ことばは」
いや、まだ いわないでおこう

いち ページ めくる ての ひら くちびるで ほどいた ミサンガ
しはつでんしゃ まばらな しあわせ ねぇ、きょうも かわらない きょう だ

ほんとう どうかしてる みたい

25.12.15

Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (1475-1564), detalhe do Juízo Final. Feliz Natal e boa passagem de ano para todos.

27.9.15

FIM DO MUNDO

Cada tempo tem o
seu próprio e 
íntimo fim
para o Mundo.
Foi assim em 1945.


Tememos mais 
um conflito 
nuclear:
o mais terrível 
final
para o mundo
precisará ser 
outro
conflito nuclear?

16.9.15

O ameno fato terrível, Adélia Prado

O que mais me lembra o Juízo
é um jardim ao meio-dia,
um jardim de rosas.
Cheirava-as como – descobri depois –
se cheira os homens,
odoroso mistério.
Um jardim caipira, o da minha casa,
140 estrelas do norte, cravinas, uma flor rosada
que desabrochava em pencas e até hoje só vi
nos canteiros dos pobres.
E rosas, rosas, rosas, o modo de minha mãe virar rainha:
‘para mim a rosa é a primeira das flores’.
Quando Deus vier,
quem nunca se permitiu a consolação das flores,
será tomado de uma ânsia de vômito;
porque o sinal será um perfume de rosas,
um perfume intensíssimo
um odor tal que transtornará o tempo
e atrairá os demônios exsudando ira.
O que mais me lembra o Juízo
é um jardim ao meio-dia,
um jardim de rosas.

7.9.15

Apocalipse, Orides Fontela

Uma estrela
atrai
a luz

uma estrela
suga
o resto do
resto, o
silêncio

elide os deuses, im
plode

acaba morre
finalíssi
mamente.

4.9.15

O Fim do Mundo, João Cabral de Melo Neto

No fim do Mundo melancólico
os homens lêem jornais.
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol.

Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.

O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.

25.6.15

Evocar Emmanuel Levinas


"Acho que a Biblia define
o humano pela santidade.
É nesse sentido
que o 'não matarás'
é o verdadeiro começo
da razão e da paz."




3.2.15

Mahatma Gandhi (1869- 1948) e Rabindranath Tagore (1861-1941)





20.1.15

Anders Beer Wilse (1865-1949)

Salmon Bay waterway, Seattle, ca. 1900
Montlake canal, seatle, ca

Canoes on Black River, ca. 1898
Boats in Elliott Bay, Seattle, ca


10.11.14

O Juízo Final – Tríptico de Viena – (1482), Hieronymus Bosch (1450-1516). Feliz Natal e boa passagem de ano a todos.

22.9.14

Poema tirado do Dicionário. Sobre a paz.


12.9.14

Em tempos de Guerra iminente...




+

Historiquement, la morale s'opposera à la politique et aura dépassé les fonctions de la prudence ou les canons du beau, pour se prétendre inconditionnelle et universelle, lorsque l'eschatologie de la paix messianique viendra se superposer à l'ontologie de la guerre. Les philosophes s'en méfient. Ils en bénéficient certes pour annoncer aussi la paix; ils déduisent une paix finale de la raison qui joue son jeu au sein des guerres anciennes et actuelles : ils fondent la morale sur la politique. Mais divination subjective et arbitraire du futur, fruit d'une révélation sans évidences, tributaire de la foi, l'eschatologie, pour eux, ressort tout naturellement de l'Opinion.   Levinas in Totalité et Infini 

1.9.14

O barco do criador do Poema Sinfônico (Liszt) e o sinfônico Poema de Tomas Tranströmer (1996).



GONDOLA LÚGUBRE N.° 2

I


Dois idosos, sogro e genro, Liszt e Wagner, moram no Canal Grande
juntamente com a mulher incansável casada com o rei Midas
que transforma tudo o que toca em Wagner.
O frio verde do oceano emana pelo chão do palacete.
Wagner está marcado, seu conhecido perfil de arlequim mais cansado do que nunca,
seu rosto é uma bandeira branca.
A gôndola está carregada com o peso da vida deles, duas idas e vindas e uma só de ida.

II

Uma janela do palacete se debate e as pessoas fazem careta para este traço repentino.
Lá fora, vê-se a gôndola do lixo, cujos remadores são dois bandidos, cada qual com um remo.
Liszt escreveu alguns acordes tão pesados que será preciso encaminhá-los
para análises no instituto de mineralogia de Padova.
Meteoritos!
Pesados demais para repousar, só conseguem afundar cada vez mais no futuro até
cair no ano dos camisas negras.
A gôndola está carregada com o peso das pedras empilhadas do futuro.

III

Uma espiada em 1990.
25 de março. Inquietação por causa da situação na Lituânia.
Sonhei que havia visitado um hospital enorme.
Sem médicos nem enfermeiros. Apenas pacientes.

No mesmo sonho, uma menina recém nascida
que pronunciava frases inteiras.

IV

Ao lado do genro, que é um homem do seu tempo, Liszt é um grão-senhor surrado pelo tempo.
Trata-se de um disfarce.
A profundeza, que prova e descarta diferentes máscaras, escolheu precisamente esta para ele –
a profundeza que quer adentrar nas pessoas sem jamais mostrar seu rosto.

V

O abade Liszt costuma ele mesmo carregar sua mala entre flocos de neve e raios de sol
e quando chegar a sua vez de morrer, ninguém estará lhe esperando na estação.
A aragem morna de um conhaque muito bem destilado leva-o para longe no meio de uma encomenda.
Ele sempre tem encomendas.
Duas mil cartas por ano!
O estudante que escreve as palavras erradas cem vezes antes de voltar para casa.
A gôndola está carregada com o peso da vida, simples e negra.

VI

De volta a 1990.

Sonhei que eu dirigi duzentos quilômetros em vão.
Então, tudo aumenta. Pardais do tamanho de galinhas
cantaram tão alto que obstruíram meus ouvidos.

Sonhei que desenhara teclas de piano
no tampo da mesa da cozinha. Eu as tocava, mudas.
Os vizinhos vieram ouvir.

VII

O cravo que ficou calado durante todo o Parsifal (mas ouvindo) enfim tem algo a dizer.
Suspiros… Seufzer
Quando Liszt tocar esta noite, manterá o pé embaixo no pedal
para que a força verde do oceano suba pelo chão e se infiltre em todas as pedras do prédio.
Boa noite, bela profundeza!
A gôndola está carregada com o peso da vida, simples e negra.

VIII

Sonhei que era o primeiro dia de aula e eu chegava atrasado.
Todos os alunos na sala tinham máscaras brancas diante do rosto.
Eu não soube dizer qual deles era o professor.

COMENTÁRIO: Na virada de 1882 para 1883, Liszt fez uma visita a sua filha Cosima e ao marido dela, Richard Wagner, em Veneza. Wagner veio a morrer alguns meses depois. Neste período, Liszt compôs duas peças para piano publicadas com o título “Gôndola da tristeza” (La lugubre gondola).

8.8.14

praça palestina (mais uma vez)


da palestina ouvíamos 

a rádio
mais popular
e a música mais popular
no bairro
onde o bombardeio
interrompia
o recreio
o lazer dos mais velhos
na praça a jogar xadrez
moças fingindo-se 
de inocentes
estarão em outra praça
próxima a rapazes 
a fingirem-se de inocentes
até o último estalo
o penúltimo estrondo