Os senhores do Mahamad fazem saber a vossas mercês: como há dias que, tendo notícia das más opiniões de Baruch de Espinoza, procuraram por diferentes caminhos e promessas retirá-lo de seus maus caminhos; e que, não podendo remediá-lo, antes, pelo contrário, tendo a cada dia maiores notícias das horrendas heresias que praticava e ensinava, e das enormes obras que praticava; tendo disso muitas testemunhas fidedignas que depuseram e testemunharam tudo em presença de dito Espinoza, de que ficou convencido, o qual tendo tudo examinado em presença dos Senhores Hahamín, deliberaram com o seu parecer que dito Espinoza seja excomunhado e apartado de toda nação de Israel como atualmente o põe em herém, com o Herém seguinte: Com a sentença dos Anjos, com dito dos Santos, com o consentimento do Deus Bendito e o consentimento de todo este Kahal Kados, diante dos Santos Sepharin, estes, com seiscentos e treze parceiros que estão escritos neles, nós Excomunhamos, apartamos, amaldiçoamos e praguejamos a Baruch de Espinoza, como o herém que excomunhou Josué a Jericó, com a maldição que maldisse Elias aos moços, e com todas as maldições que estão escritas na Lei. Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar e maldito seja em seu levantar, maldito ele em seu sair e maldito ele em seu entrar; não queira Adonai perdoar a ele, que então então semeie o furor de Adonai e seu zelo neste homem e caia nele todas as maldições escritas no livro desta Lei. E vós, os apegados com Adonai, vosso Deus, sejais atento todos vós hoje. Advertindo que ninguém lhe pode falar oralmente nem por escrito, nem lhe fazer nenhum favor, nem estar com ele debaixo do mesmo teto, nem junto com ele a menos de quatro côvados (três palmos, isto é, 0,66m; cúbito), nem ler papel algum feito ou escrito por ele.
5.7.12
3.6.12
Evocar Emmanuel Levinas
O amor visa outrem, visa-o na sua fraqueza. A fraqueza não representa aqui o grau inferior de um qualquer atributo, a insuficiência relativa de uma determinação comum a mim e ao Outro. Anterior à manifestação dos atributos, ela qualifica a própria alteridade. Amar é temer por outrem, levar ajuda à sua fraqueza. Nessa fraqueza, como na aurora, se levanta o Amado que é Amada. Epifania do Amado, o feminino não vem juntar-se ao objeto e ao Tu, previamente dados ou encontrados no neutro, o único genero conhecido pela lógica formal. A epifania da Amada faz um só com o seu regime de ternura. A maneira da ternura consiste numa fragilidade extrema, numa total vulnerabilidade. Manifesta-se no limite do ser e do não ser, como um doce calor em que o ser se dissipa irradiando, como o "encarnado leve" das ninfas no Après-midi d'un faune que "adeja no ar entorpecido de sonos espessos", que se desindividua e se liberta do seu próprio peso de ser, já evanescência e delíquio, fuga em si no próprio seio da sua manifestação. E nessa fuga o Outro é Outro, estranho ao mundo, demasiado grosseiro e ofensivo para ele.
Totalidade e Infinito, Secção IV (Para além do Rosto) B Fenomenologia do Eros.
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I
29.5.12
Tenzone, Ezra Pound
Will people accept them?
(i.e. these songs).
As a timorous wench from a centaur
(or a centurion),
Already they flee, howling in terror.
Will they be touched with the verisimilitudes?
Their virgin stupidity is untemptable.
I beg you, my friendly critics,
Do not set about to procure me an audience.
I mate with my free kind upon the crags;
the hidden recesses
Have heard the echo ofmy heels,
in the cool light,
in the darkness.
(i.e. these songs).
As a timorous wench from a centaur
(or a centurion),
Already they flee, howling in terror.
Will they be touched with the verisimilitudes?
Their virgin stupidity is untemptable.
I beg you, my friendly critics,
Do not set about to procure me an audience.
I mate with my free kind upon the crags;
the hidden recesses
Have heard the echo ofmy heels,
in the cool light,
in the darkness.
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será que eles aceitarão?
14.5.12
o real interesse de olga belov por guimarães rosa nos rendeu a sua complexa tese de doutorado: problemas de (in)traduzibilidade em "a hora e a vez de augusto matraga", de joão guimarães rosa nas versões de língua inglesa e russa (2008), texto que a editora da ACB chamou de a força da tradução, num título pomposo que sem trair a questão central do estudo atrai nossa curiosidade e nos faz indagar: como se desenrola?
.a citação inicial do trabalho é do francês jacques derrida:
.a citação inicial do trabalho é do francês jacques derrida:
"Dentro dos limites em que é possível, em que elo menos parece possível, a tradução pratica a diferença entre significado e significante. Mas, se esta diferença nunca é pura, a tradução também não o é, e temos de substituir a noção de tradução por uma noção de transformação: transformação regulada de uma língua por outras, de um texto por outro" Posições.
.
na frase do pensador citado, a noção de tradução assume claramente caráter de alteridade. para uma noção de alteridade, o outro é diferente do mesmo porque tem suas peculiaridades e particularidades e não só a tradução como as línguas em si não escapam de tal dinâmica.
.
o trabalho de olga belov usa duas expressões-chaves: texto de língua de chegada e texto de língua de partida, que em sigla aparecem como tlc e tcp. em outras palavras: repetir algo em outra língua re-configura (desfigura?) a forma, traduttore traditore.
.
olga belov discute amplamente aquilo que pode ser compreendido como a tradução que assume caráter de transformação e, de outra forma: olga belov dialoga com a frase do pensador citada acima de maneira brilhante e o faz por mais de 400 páginas.
uma citação
.
MATRAGA NÃO É MATRAGA, não é nada. Matraga é Esteves. Augusto Esteves, filho do Coronel Afonsão Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto -- o homem -- nessa noitinha de novena, num leilão de atrás da igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores, do Córrego do Murici.
.
Na versão de língua inglesa lê-se:
.
MATRAGA IS NOT MATRAGA, or anything. Matraga is Êsteves. Augusto Êsteves, the son of Coronel Afonsão, of Pindaíbas and Saco-da-Embira. Or Mr. Augusto, Nhô Augusto -- the man -- on the everning of a novena, at the auction behind the church in the vilage of Our-Lady-of -Sorrows-of-the Creek-Muricí.
.
(...)
.
Na versão russa, por sua vez, lê-se:
.
Matraga -- nikakói on nié Matraga, nitchevó pokhójevo, Matraga -- on Esteves. Augusto Esteves, sýn polkójevo Estévessa, Bolchóvo Alfonso, u kotórovo pomiêstia v pindaíbas i v Saki-da-Embira. Libo Nhô Augusto -- kak zváli ievó v tu notch na autsióne, kotóry prokhodíl na zádniem dvrié za tsékoviu Bogomáteri Skorbiáschei, gdié tól'ko chto otslujýli deviatíny, a býlo éto v mestêtchke Corrego-de-Murici.
.
Como retroversão, teremos:
.
Matraga - ele não nenhum, nada disso, Matraga -- ele é Esteves. Augusto Esteves, filho do coronel Esteves, O Grande Afonso, que possui propriedades rurais em pindaíbas e no Saco-de-Embira. Ou Nhô Augusto - como o chamavam naquela noite no leilão, que se realizava no patio atrás da igreja de mãe-de-Deus Dolorosa, onde acabaram de celebrar as novenas, e isto ocorreu no lugarejo do Córrego-do-Murici.
.
(...)
.
lugar comum
.
> nenhuma língua é universal porque nenhuma língua é uma equação matemática: o que o autor pode dizer de universal (ideia) jamais será repetido do modo como deveria ser dito. do modo como foi dito (forma).
.
> se língua alguma é universal, nenhum povo é superior: cultura alguma é superior.
.
> verter guimarães rosa para o português é ao seu turno uma tarefa complicada. a língua de guimãraes rosa é outra e dizer isso é um lugar comum.
.
> uma região é tão universal quanto o universo.
.
na frase do pensador citado, a noção de tradução assume claramente caráter de alteridade. para uma noção de alteridade, o outro é diferente do mesmo porque tem suas peculiaridades e particularidades e não só a tradução como as línguas em si não escapam de tal dinâmica.
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o trabalho de olga belov usa duas expressões-chaves: texto de língua de chegada e texto de língua de partida, que em sigla aparecem como tlc e tcp. em outras palavras: repetir algo em outra língua re-configura (desfigura?) a forma, traduttore traditore.
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olga belov discute amplamente aquilo que pode ser compreendido como a tradução que assume caráter de transformação e, de outra forma: olga belov dialoga com a frase do pensador citada acima de maneira brilhante e o faz por mais de 400 páginas.
uma citação
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MATRAGA NÃO É MATRAGA, não é nada. Matraga é Esteves. Augusto Esteves, filho do Coronel Afonsão Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto -- o homem -- nessa noitinha de novena, num leilão de atrás da igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores, do Córrego do Murici.
.
Na versão de língua inglesa lê-se:
.
MATRAGA IS NOT MATRAGA, or anything. Matraga is Êsteves. Augusto Êsteves, the son of Coronel Afonsão, of Pindaíbas and Saco-da-Embira. Or Mr. Augusto, Nhô Augusto -- the man -- on the everning of a novena, at the auction behind the church in the vilage of Our-Lady-of -Sorrows-of-the Creek-Muricí.
.
(...)
.
Na versão russa, por sua vez, lê-se:
.
Matraga -- nikakói on nié Matraga, nitchevó pokhójevo, Matraga -- on Esteves. Augusto Esteves, sýn polkójevo Estévessa, Bolchóvo Alfonso, u kotórovo pomiêstia v pindaíbas i v Saki-da-Embira. Libo Nhô Augusto -- kak zváli ievó v tu notch na autsióne, kotóry prokhodíl na zádniem dvrié za tsékoviu Bogomáteri Skorbiáschei, gdié tól'ko chto otslujýli deviatíny, a býlo éto v mestêtchke Corrego-de-Murici.
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Como retroversão, teremos:
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Matraga - ele não nenhum, nada disso, Matraga -- ele é Esteves. Augusto Esteves, filho do coronel Esteves, O Grande Afonso, que possui propriedades rurais em pindaíbas e no Saco-de-Embira. Ou Nhô Augusto - como o chamavam naquela noite no leilão, que se realizava no patio atrás da igreja de mãe-de-Deus Dolorosa, onde acabaram de celebrar as novenas, e isto ocorreu no lugarejo do Córrego-do-Murici.
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(...)
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lugar comum
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> nenhuma língua é universal porque nenhuma língua é uma equação matemática: o que o autor pode dizer de universal (ideia) jamais será repetido do modo como deveria ser dito. do modo como foi dito (forma).
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> se língua alguma é universal, nenhum povo é superior: cultura alguma é superior.
.
> verter guimarães rosa para o português é ao seu turno uma tarefa complicada. a língua de guimãraes rosa é outra e dizer isso é um lugar comum.
.
> uma região é tão universal quanto o universo.
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guimarães rosa,
OLGA BELOV
17.4.12
1.4.12
2012 (a)
#
e dizer que estava enlouquecendo desde ontem
ou levitar com o som da voz da amada
quando dizia nome de flores que gostava
para depois os nomes que não.
subir as escadas sem ar
sem ar deixar a moça após o amor
chegar ao clímax da casa e do gozo
do alto a visão das tulipas de 1985
na cama
ela desconsertada.
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tulipas em 1985
1985--2012 (b)
e tulipas líricas em 1985
e dizer que estava enlouquecendo desde ontem
ou levitar com o som da voz da amada
quando ela dizia o nome das flores que gostava
para depois os nomes que não.
subir as escadas sem ar
sem ar deixar a moça após o amor
chegar ao clímax da casa e do gozo
do alto a visão das tulipas de 1985
na cama
ela desconsertada.
e dizer que estava enlouquecendo desde ontem
ou levitar com o som da voz da amada
quando ela dizia o nome das flores que gostava
para depois os nomes que não.
subir as escadas sem ar
sem ar deixar a moça após o amor
chegar ao clímax da casa e do gozo
do alto a visão das tulipas de 1985
na cama
ela desconsertada.
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#,
as mesmas e outras,
mais tulipas
Hugh Selwyn Mauberley, Pound
Ode Pour De Selection De Son Sepulchre FOR three years, out of key with his time, He strove to resuscitate the dead art Of poetry; to maintain "the sublime" In the old sense. Wrong from the start-- No hardly, but, seeing he had been born In a half savage country, out of date; Bent resolutely on wringing lilies from the acorn; Capaneus; trout for factitious bait; ἴδμεν γάρ τοι πάν πάνθ', όσ' ένι Τροίη Caught in the unstopped ear; Giving the rocks small lee-way The chopped seas held him, therefore, that year. His true Penelope was Flaubert, He fished by obstinate isles; Observed the elegance of Circe's hair Rather than the mottoes on sun-dials. Unaffected by "the march of events," He passed from men's memory in _l'an trentiesme De son eage_; the case presents No adjunct to the Muses' diadem. (...)
29.3.12
Manhã de nevoeiro. O pescador levanta-se da esteira, olha pela fresta da casa o espaço branco e diz para a mulher. Hoje, não vou ao mar, com uma névoa assim até os peixes se perdem debaixo de água. Disse-o este, e, por iguais ou parecidas palavras, também o disseram os mais pescadores todos, duma margem e da outra, perplexos pela extraordinária novidade de um nevoeiro impróprio da época do ano em que estamos. Só um, que pescador de ofício não é, ainda que com os pescadores seja o seu viver e trabalhar, assoma a porta da casa como para certificar-se, diz para dentro, Vou ao mar. Por trás do seu ombro, Maria de Magdalena pergunta, Tens de ir, Jesus respondeu, Já era tempo, Não comes, Os olhos estão em jejum quando se abrem de manhã. Abraçou-a e disse, Enfim, vou saber quem sou e para o que sirvo, depois, com uma incrível segurança, pois o nevoeiro não deixava ver nem os próprios pés, desceu o declive que levava à água, entrou numa das barcas que ali se encontravam amarradas e começou a remar para o invisível que era o centro do mar.
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josé saramago,
nobel 1998,
o evangelho segundo ele mesmo
9.3.12
Brise Marine, Stéphane Mallarmé
Fuir! là-bas fuir ! Je sens que des oiseaux sont ivres
D´être parmi l´écume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retriendra ce coeur qui dans la mer se trempe
O nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l´ancre pour une exotique nature!
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l´adieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux qu´un vent penche sur les naufrages
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l´ancre pour une exotique nature!
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l´adieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux qu´un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots...
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!
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Stéphane Mallarmé
3.3.12
Quarta-feira de Cinzas, Eliot pela tradução do poeta Ivan Junqueira.
III
Na primeira volta da segunda escada
Voltei-me e vi lá embaixo
O mesmo vulto enrodilhado ao corrimão
Sob os miasmas que no fétido ar boiavam
Combatendo o demônio das escadas, oculto
Em dúbia face de esperança e desespero.
Na segunda volta da segunda escada
Deixei-os entrançados, rodopiando lá embaixo;
Nenhuma face mais na escada em trevas,
Carcomida e úmida, como a boca
Imprestável e babugenta de um ancião,
Ou a goela serrilhada de um velho tubarão.
Na primeira volta da terceira escada
Uma túmida ventana se rompia como um figo
E além do espinheiro em flor e da cena pastoril
A silhueta espadaúda de verde e azul vestida
Encantava maio com uma flauta antiga.
Doce é o cabelo em desalinho, os fios castanhos
Tangidos por um sopro sobre os lábios,
Cabelos castanhos e lilases;
Frêmito, música de flauta, pausas e passos
Do espírito a subir pela terceira escada,
Esmorecendo, esmorecendo; esforço
Para além da esperança e do desespero
Galgando a terça escala.
Senhor, eu não sou digno
Senhor, eu não sou digno
_______________mas dizei somente uma palavra.
Na primeira volta da segunda escada
Voltei-me e vi lá embaixo
O mesmo vulto enrodilhado ao corrimão
Sob os miasmas que no fétido ar boiavam
Combatendo o demônio das escadas, oculto
Em dúbia face de esperança e desespero.
Na segunda volta da segunda escada
Deixei-os entrançados, rodopiando lá embaixo;
Nenhuma face mais na escada em trevas,
Carcomida e úmida, como a boca
Imprestável e babugenta de um ancião,
Ou a goela serrilhada de um velho tubarão.
Na primeira volta da terceira escada
Uma túmida ventana se rompia como um figo
E além do espinheiro em flor e da cena pastoril
A silhueta espadaúda de verde e azul vestida
Encantava maio com uma flauta antiga.
Doce é o cabelo em desalinho, os fios castanhos
Tangidos por um sopro sobre os lábios,
Cabelos castanhos e lilases;
Frêmito, música de flauta, pausas e passos
Do espírito a subir pela terceira escada,
Esmorecendo, esmorecendo; esforço
Para além da esperança e do desespero
Galgando a terça escala.
Senhor, eu não sou digno
Senhor, eu não sou digno
_______________mas dizei somente uma palavra.
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29.2.12
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Herman Melville
caminhar pelo parque:
a lição da caminhada e da canção.
e a naturalidade que todas as coisas têm.
a imagem das ruas, das cidades e das gentes.
DE solenidades.
de acordar cedo e solenidades.
de caminhar no parque e de solenidades.
DE solenidades e de caminhadas.
a lição da caminhada e da canção.
e a naturalidade que todas as coisas têm.
a imagem das ruas, das cidades e das gentes.
DE solenidades.
de acordar cedo e solenidades.
de caminhar no parque e de solenidades.
DE solenidades e de caminhadas.
25.2.12
Em ocasião dessa minha tumultuada quaresma e da Quaresma da Igreja que ainda acredito, pequena citação da santa de Ávila (1515, 1582 ), Livro da Vida.
Vê a grande cegueira dos prazeres, e como compra trabalhos com eles, mesmo para esta vida, e desassossego. Que inquietação! Quão pouca alegria! Quanto trabalho em vão!
Aqui não vê apenas as teias de aranha de sua alma e os pecados grandes, mas um pozinho que haja, por pouco que seja, porque o sol está muito claro. E assim, por muito que trabalhe uma alma para se aperfeiçoar, se esse Sol a toma de verdade, vê-se toda muito turva. É como a água que está num copo, pois se o sol não bater, fica muito límpida, mas, se bater, vê-se que está toda cheia de sujeira.
Essa comparação é ao pé da letra. Antes de estar a alma nesse êxtase, parece que tem cuidado em não ofender a Deus e que, segundo suas forças, faz o que pode. Mas, tendo chegado aqui, onde bate esse Sol de justiça que a faz abrir os olhos, vê tantas manchas que queria voltar a fechá-los. Porque ainda não é tão filha dessa águia poderosa para que possa olhar esse Sol cara a cara. Mas, por pouco que tenha os olhos abertos, vê-se toda turva. Lembra-se do verso que diz: "Quem será justo diante de Ti?"
Quando olha esse divino Sol, ofusca-lhe a claridade. Quando olha para si, o barro tapa seus olhos: cega está essa pombinha. Assim, acontece muitas e muitas vezes de ficar cega assim, totalmente, absorta, desvanecida por tantas grandezas que vê. Aí ganha-se a verdadeira humildade, para não se importar nem um pouco em falar bem de si ou que falem os outros. O Senhor reparte a fruta do jardim e não ela, e assim não pega nada em suas mãos. Todo o bem que tem dirige-se a Deus. Se diz algo por si, é para glória d'Ele. Sabe que ela não tem nada ali, e ainda que quisesse não poderia ignorar isso. Porque vê com os próprios olhos que, ainda que lhe pese, faz com que se fechem para as coisas do mundo e se mantenham abertos para entender verdades.
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30.1.12
1986
Beijando-a na estação sem metrô
dentro do livro do John Donne
ou beijando-a na biblioteca,
não no jardim do mosteiro
ou no pátio da faculdade do mosteiro,
beijando-a de longe:
na espera da sua chegada beijando-a na espera
e na chegada dela
beijando-a na chegada
ou não a beijando,
esperando ela na espera para o beijo e
na chegada dela
beijando-a na sua espera.
E depois que beijar
lá na sacada
deixa-la partir
para os que não a beija,
para os que não reza.
dentro do livro do John Donne
ou beijando-a na biblioteca,
não no jardim do mosteiro
ou no pátio da faculdade do mosteiro,
beijando-a de longe:
na espera da sua chegada beijando-a na espera
e na chegada dela
beijando-a na chegada
ou não a beijando,
esperando ela na espera para o beijo e
na chegada dela
beijando-a na sua espera.
E depois que beijar
lá na sacada
deixa-la partir
para os que não a beija,
para os que não reza.
25.1.12
mesmo tema com sutil variação.
![]() |
| Turris Sapientiae, 1470 |
não há muitos assuntos na literatura.
embora os cínicos dissimulem sempre nos seus ofícios de encher sacos com vento, de dançar com o éter ou o vazio que embora seja outro tema é uma fuga para que se não diga o que importa e é uma variação, portanto do nada e do medo ou ainda da incapacidade de dizer o que importa porque certamente é mais lucrativo ou importante para o status a imagem que a essência: o velho problema da doxa e episteme.
desde homero que as lutas são um tema. a amizade e o amor e o amor-de-amizade são os temas. desde cervantes que a amizade é um tema. que o amor é um tema e que a falta dele que leva a loucura é um tema. que a amizade é um tema. desde dante que o amor é um tema. que a amizade é um tema. desde ovídio que o amor é um tema. que a paixão é um tema. desde lorca no seu pranto por ignacio sánchez mejías que o amor é um tema. que amizade é um tema. que a paixão é um tema. desde yourcernar que a paixão é um tema. que a amizade é um tema. que o amor e a paixão são os temas. desde dostoiévski que o amor que salva é um tema. que a loucura é um tema. que a amizade é um tema. desde...
eu poderia enumerar um catalogo para lhes atravessar os horários das três refeiçoes do dia. o amor desde sempre é a questão da literatura e se Deus tem nome mais encarnado esse nome é amor. é um tema.
o mal na giesta do gilgamesh é uma variação do mesmo tema. da sua ausência-presença. certamente o mahabharata deve tratar do amor. o amor vende bastante, é o tema da moda, o assunto de sempre.
21.1.12
"memento pulvis quia homo es, et in hominem reverteris" padre antónio vieira, sermão de quarta-feira de cinzas.
manoel joaquim de carvalho jr. no livro que antecede o que deveria ser chamado de marco nacional, em busca do ser, deus e liberdade, propõe amplo e orgânico estudo (como diz franco polato, na época professor na universidade de bologna). o seu programa quer perscrutar aquilo que o próprio título propõe: deus e liberdade, bem como todos os seus desdobramentos de afirmação e negação.
o esquema segundo polato segue da seguinte forma:
liberdade - universo material - Deus
tempo > espaço> movimento > casualidade > mundo > homem >
consciência > conhecimento > reflexão > criação > nada > mal >
morte > vida> ato > vontade > verdade > história > dialética > ser
no capítulo dedicado à morte cito a tal anotação de manoel joaquim de carvalho jr. que tanto inquieta e que quero transcrever :[ vale dizer que seu pensamento em torno do que entendemos por morte se movimenta enquanto crítica ou aquilo que aproxime-se (e ultrapasse, transborde ou extrapole) à crítica, -- uma reflexão -- ao modo de "heidegger" pensar Deus e o mundo e pensar "o homem" para morte ]:
é como dizer: a morte é um fim para a vida não para o amor uma vez que "o amor é forte, é como a morte." (Ct 8,6)
manoel joaquim de carvalho jr. no livro que antecede o que deveria ser chamado de marco nacional, em busca do ser, deus e liberdade, propõe amplo e orgânico estudo (como diz franco polato, na época professor na universidade de bologna). o seu programa quer perscrutar aquilo que o próprio título propõe: deus e liberdade, bem como todos os seus desdobramentos de afirmação e negação.
o esquema segundo polato segue da seguinte forma:
liberdade - universo material - Deus
relações:
tempo > espaço> movimento > casualidade > mundo > homem >
consciência > conhecimento > reflexão > criação > nada > mal >
morte > vida> ato > vontade > verdade > história > dialética > ser
no capítulo dedicado à morte cito a tal anotação de manoel joaquim de carvalho jr. que tanto inquieta e que quero transcrever :[ vale dizer que seu pensamento em torno do que entendemos por morte se movimenta enquanto crítica ou aquilo que aproxime-se (e ultrapasse, transborde ou extrapole) à crítica, -- uma reflexão -- ao modo de "heidegger" pensar Deus e o mundo e pensar "o homem" para morte ]:
"Se não morrêssemos, não amaríamos."
é como dizer: a morte é um fim para a vida não para o amor uma vez que "o amor é forte, é como a morte." (Ct 8,6)
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padre antónio vieira
16.1.12
24.12.11
como quando vi
pela terceira vez o mar
pela terceira vez o mar
ou aviões num porto de brasília
das águas do mar em brasília
diziam exatamente o estado de
espírito a ser apreendido:
um gato preto na metáfora do
guimarães rosa (por exemplo),
guimarães rosa
é escuro e não está lá
(no entanto)
o mar é visto do quarto escuro
ou aviões que boiam no mar-ar
e quando você faz a volta
ou quando a janela vista de cima
esta embaçada
esta embaçada
tudo lhe parece um pouco mais
nítido.
nítido.
15.12.11
Dois parágrafos de um longo estudo sobre a arte do Fiódor Mikháilovich Dostoiévski (1821-1881) tratando dos aspectos centrais na obra desse Homem inspirado pelo Transcendente ( Deus, a saber)
Todos os romances de Dostoiévski versam sobre a relação do homem com Deus. Em Crime e Castigo, o tema principal é o mistério da ressurreição de um homem morto pelo pecado; em O idiota, é o mistério da natureza divina de Cristo como condição única e necessária de sua missão salvadora (nem o homem mais "positivamente belo" tem a condição de tornar-se salvador para os próximos); e Os demônios, é o mistério da Encarnação da Palavra -- é verdade que esse permaneceu basicamente nos manuscritos preparatórios do romance --, porque o texto principal manisfestou-se no tema da essência funesta da impostura e da substituição da verdade divina por uma "teoria" terrena qualquer; em O adolescente, segundo precisa observação de T. A. Kassáktina, trata-se das relações filias do homem com o Pai: da dependência servil em face do mais sórdido símbolo material da ligação entre os homens (o dinheiro), acarretando a perda dessas relações e o ganho da liberdade com o seu restabelecimento (embora, é claro, todos os temas acima referidos estejam presentes em diferentes graus em todos os romances).
No romance Os irmãos Karamázovi, testamento de Dostoiévski, o tema principal é a descida do Espírito Santo sobre os homens. Como escreve o teólogo russo V. N. Losski, a causa de Cristo está voltada para a natureza humana em seu todo, a causa do Espírito Santo, para cada pessoa humana em separado, ressaltando-a "pela marca da relação pessoal e singular com a 'Santíssima Trindade' isto é, revelando ao homem a verdade e permitindo-lhe entender que 'a vida é o paraíso' ", como diz o stáertz Zossíma. Essa trajetória é percorrida no romance pelas personagens Márkel, Zossíma, o visitante mistérioso, Dimitri, Ivan (em perspectiva) e, é claro, Aliócha. Segundo o plano de Dostoiévski, eram precisamente a trajetória e o exemplo de Aliócha que deviam tornar-se o ponto de referência para todas as futuras gerações de leitores em sua vida autêntica durante a leitura do romance. É precisamente assim mesmo que eu compreendo a afirmação peremptória da modalidade de tempo -- o "momento presente" --, que no prefácio ao romance Dostoiévski endereça ao leitor concreto:
O romance principal é o segundo: a atividade de meu herói já em nosso tempo, precisamente no tempo corrente de nossos dias.
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Sobre Karen Stepanyan
vice presidente da Sociedade Russa de estudos de Dostoiévski, redator-chefe da revista-almanaque Dostoiévski i mirovaia kultura (Dostoiévski e a cultura mundial), representante da Rússia na International Dostoievski Society (ISD) , membro da União de Escritores da Rússia, professor do Instituto de Literatura Univeral e colaborador da revista Znâmia.
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