11.8.11

Argumento em Duns Scotus (Opus Oxoniense IV, d. 43, q. 2) sobre a felicidade, sobre a imortalidade também.

"Ademais, é conhecido naturalmente que uma espécie inteira não é carente de seu fim. Pelo menos este é atingido em algum indivíduo. Ora, é conhecido naturalmente que a felicidade é o fim da espécie humana. Portanto, é também conhecido naturalmente que o homem pode consegui-la pelo menos em algum indivíduo. Ora, não pode consegui-la nesta vida por causa de múltiplas misérias que a acompanham, tais como as vicissitudes da fortuna, a fraqueza do corpo, a imperfeição do saber e da virtude, a instabilidade e fadiga no exercicio do ato de perfeição.  De tal maneira que nenhuma operação, por mais que seja agradável no início, pode ser sempre agradável. Até mesmo, se ela se torna fastidiosa, será agrádavel cessá-la. Ora, é conhecido pela razão natural que a operação que torna o homem feliz não é desagradável nem pode ser possuída apenas pela alma separada do corpo, pois em tal caso o homem não atingiria o seu fim. Portanto, será possuída noutra vida e pelo todo conjunto de corpo e alma. Parece, por conseguinte, que pela razão natural se conclui, pelo menos, em que coisas o homem alcança o seu fim."

9.8.11

+ 1 poema c/ lrp,. da cidade. sobre a cidade.

#

a cidade é um dia de chuva
me ocorre o refúgio dos parapeitos
me ocorre a chuva e a cidade, me ocorre

um verão menor a sobrevir
vir o sol e o dia, vir

ameno, à boca de boas novas,
a cidade é um dia de contas:


é amorfo o calendário das mudanças,
é um rio a cidade ou um dia de chuva.

6.8.11

cantar caymmi. cantar a vida. cantar o mar.

3.8.11

A Carta, Mario Quintana

Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria...

Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas, com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...

Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!

31.7.11

way to go o círculo!


durante o banho eu pensava passar num mercado para levar refrigerantes ou cerveja ou um salgadinho para ver o show do círculo. é que acho tudo muito caro nesses lugares. ir ver o círculo não quer dizer necessariamente entrar para o círculo de gastadores. durante o show precisei administrar uma porção de odores. fumaças que mudavam de textura quando a policia passava: indo do mais natural ao mais industrializado (eu observava os espectadores). 

poucas vezes na vida eu tive aquela sensação de estar empurrando minha visão de mundo para outro lugar diferente: alargando assim aquilo que eu acreditava para o mesmo e para outro. a banda o círculo me pareceu bastante religiosa na medida em que uma banda de rock pode ser assim desejada. tal qual santa teresa d'ávila na sua erótica do sagrado nos amplia o ver o mundo empurrando nossas opiniões para outro lugar a banda de rock do concerto no parque da cidade perto da minha casa empurrou meu ver as coisas para muitas outros territórios, inclusive o sagrado, o místico.

o mundo é um círculo e o show era cheio de círculos: um rapaz com uma mochila onde se dava ler pearl jam segurava o dvd do david bowie nas mãos e comentava com os seus algo sobre beleza e qualidade. o rapaz que esbarrou em mim disse que avó dele cantava melhor. era um homem mais velho e pegava latas de cerveja. outros cantavam e falavam de amor e as fumaças seguiam sem nada reclamar. de minha parte tudo pareceu me acenar para a diversidade. um circulo nunca é diverso, é tautológico. esse circulo pareceu me cheio de outros que me remetiam a outros que por sua vez não se satisfaziam com os mesmos dando sempre e mais para outros e outros e outros. ir até o círculo.

26.7.11

Anotações, 1942-1948.

#

Dormir ou sonhar, dizeis, e por sonhar, meu príncipe, entendeis sem dúvida mais ou menos o equivalente a viver. Mas se é dormir, é justo que repouseis após tantas insônias no terraço de Elsinor. Em caso de sonhar, porque temeis os sonhos, vós que temeis tão pouco os fantamas?

Marguerite Yourcenar, Peregrina e Estrageira

16.7.11

26.6.11

1985

e tulipas líricas em 1985
e dizer que estava enlouquecendo desde ontem
ou levitar com o som da voz da amada
quando ela dizia o nome das flores que gostava
para depois os nomes que não.

subir as escadas sem ar
sem ar deixar a moça após o amor
chegar ao clímax da casa e do gozo
do alto a visão das tulipas de 1985
na cama ela desconsertada.

24.6.11

anatômico, e


"...Doravante, quando o homem estremece na alienação e o
mundo o angustia, ele levanta o olhar (para a direita ou
para esquerda, pouco importa) e avista uma imagem... "
Martin Buber, Eu e Tu

Da garganta
_________ao estômago e
até a língua até as pálpebras
lá: na laringe
__da planta nos pés à porta,
chaga - calota - o Nome
orante da minha infância
sonhos de ver Cultura
de ver avanço;
______Sonho no estômago
das entranhas,
joelhos e
o verso esquecido na Esperança
e o que a mão apalpa,
fluído.

18.6.11

3.6.11

26

#
tenho 26 anos agora
tenho meu poema e minha idade
nela escrevi um lema com letras largas:
o número é importante
e a vida também

2.6.11

Do modo como não se quer a bondade


Y com sua enorme inteligência compreensiva, dedicando-se a não ser humana, no sentido em que ser humana é também ter violências e defeitos. Dedica-se a compreender perdoando os outros. Aquele coração está vazio de mim porque precisa que eu seja admirável. Todos recorrem a ela quando estão com algum conflito e ela, "a consoladora oficial", entende. Minha grande altivez: preciso ser achada na rua.

Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo, 14 de junho, 1969.

28.5.11

Khliebnikov ou a prefiguração da escultura sonora.

Eu vi
Um vivo
Sol
Ou tom no
Outono
Só no
Sono
Azul.
Enquanto
Do canto
Dos teus calcanhares
Calcas os ares
Para o novelo
Da nebulosa,
Teu cotovelo
Em ângulo alvo
Alteando aos lábios.
Abril,
Abrir
A voz
As provas
De
Deus.
Consonha
Em vôo
Aberto
O abeto,
Colhe os
Olhos
Azuis
Com os laços
Das sobrancelhas
E dos pássaros
Cerúleos.
No anil
Há mil.


1919


Tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman

21.5.11

2

repara teu corpo,
tramas de 1 bilhão de hiatos,
diz

é como a bola que a neve lança
é como neve daquela lança

daquela época
daquele infante

repara a dança
repara e canta:

lança teu corpo daquela ponte
diz o teu nome em

tom e

quando cola da neve
cola na lança

o teu corpo
naquela banda

do mundo

repara a dança enquanto diz
a bola a neve
repara a sombra
que deixa bem leve

encanta encanta encanta

repara a prece homem
homem

repara a idade daquela era
lança teu corpo daquela prancha

mergulha, desce, afunda
repara o verso que disse o cego

repara o eco daquele velho
repara o mapa o catalogo

check in

repara. repara.

28.4.11

O mar é meu, creiam.     ---------------- o mar é meu, creiam.
É seu o mar,  ------  é seu o mar,
dele o mar é   --------------------  dele o mar é 
como o mar --------- como o mar
que era seu                                                     que era seu
e é dele ------------------------------------------ e é dele
o mar é quanto    o mar é quanto 
------------------------------o mar pertença  o mar pertença
ao dia ao dia ao dia  ao dia ao dia ao dia   ao dia ao dia ao dia 
o mar é meu. -----  o mar é meu.  -------------- o mar é meu.

18.4.11

Tempo da pedra dispor-se a florescer...... É tempo do tempo ser.. É tempo.

#

3.4.11

25.3.11

>>>

25.2.11

aceno a siena

catarina de siena desconhecia as letras
catarina de siena escrevia para seu papa
(ditava)
catarina de siena não confudia hóstia sem a presença do DEUS
que ela amava

ela sabia onde deus estava e
onde Deus não estava

19.1.11

.
.
.
.
.
.
.
porque eu eu não sei até onde me leva a palavra até onde o poema me leva até onde o sentido o signo o verbo a fala a letra é por isso que escrevo poque eu não sei eu não sei eu não sei não se
.
.
.
.
.
.
.

8.1.11

coltrane, coltrane.

 

18.12.10

Xto Pantocrator. Feliz Natal.

30.11.10

e. e. cummings, carry your heart with me (i carry it in

carry your heart with me (i carry it in
my heart)i am never without it (anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart(i carry it in my heart) 

2.11.10

e-mail dela, valécia ribeiro: é amanhã.




11.10.10

O SALMO DO CORPO

Davi dançava da dança
do teus passos:
tonto quando ou
quanto histórico
compunha o Salmo
do movimento
do  propário corpo.

Teu verso,
a dança.
Tua música,
outra esperança.

– Davi,
o que comemoras?

– O meu corpo em festa.

Das chagas 
não me recordo
embora delas 
tenha pressa.

O que vejo?
O que canto?
O que esqueço?
Me reconheces?

Davi ao devir devia
a música que sorvia
a dança que é o verso.

26.9.10



20.9.10

Evocar Duns Scotus

"215. Para explicar como Deus possa ser a razão do conhecimento sem ser conhecido, utiliza-se o seguinte exemplo: o raio do sol às vezes procede de sua fonte como que através de uma iluminação indireta, às vezes diretamente, embora o sol seja a razão de se ver o que é visto no raio que dele procede do primeiro modo, entretanto não é como visto em si. Daquilo, porém, que é visto no raio dele procedente do segundo modo, o sol é a razão de conhecimento de tal modo que é também conhecido. Portanto, quando a luz incriada ilumina o intelecto como que através de uma iluminação direta, então, na medida em que é visto, é a razão de se ver as demais coisas nela. No entanto, ela ilumina o nosso intelecto na vida presente como que através de uma iluminação indireta. Portanto, é a razão de que o nosso intelecto veja embora não seja visto.  "

Sobre o Conhecimento Humano (Opus Oxoniense I, d. 3, parte 1, q. 4.)

18.7.10







30.6.10

revia ani-
mais (dese-
nho em 
areia )
portas,
recados
anotou

(a letra 
importa,
poesia 
não
importa)

criava 
1 leão
na varando
quarto
ou sala
tinha o
bicho
e o que
recordo:
seu mal.

7.5.10

prece semínima

então Ela é prece
o foco e o gosto
no canto onde se move
.
ELA
.
nome de rainha e prece
Imaculada e prece
.
é quem desfaz 
o gosto amargo quando pinto a tela com meu fígado.

29.3.10

corpo em trânsito, valécia ribeiro

ela lembra via e-mail que embora seja no 1º de Abril não é mentira. :)



3.12.09

2





repara teu corpo,
tramas de 1 bilhão de hiatos,
diz

é como a bola que a neve lança
é como neve daquela lança

daquela época
daquele infante

repara a dança
repara e canta:

lança teu corpo daquela ponte
diz o teu nome em
tom e

quando cola da neve
cola na lança

o teu corpo
naquela banda

do mundo

repara a dança enquanto diz
a bola a neve
repara a sombra
que deixa bem leve

encanta encanta encanta

repara a prece homem
homem

repara a idade daquela era
lança teu corpo daquela prancha

mergulha, desce, afunda
repara o verso que disse o cego

repara o eco daquele velho
repara o mapa o catalogo

check in

repara. repara.

25.10.09

ele tem um jardim

"Os sentimentos residem no homem
mas o homem habita em seu amor"
eu e tu, m. buber, I, 22.


daquele lado
tua mecha é
passageiro que atravessa
o bilhete
a nota por dizer
teu nome sacro

caim,
porque roubaste o perfume
dos meus cachos?

e o poema daquele lado
do travesseiro
missiva
para iniciados

turbamulta
(pederastas)
e procissão pela 
praça

falo agora
caim
calo e hora
teu hálito
esconde
cancro,
castro.

24.10.09

®


:

canta agora,
antes que shimidt apague
tua voz

7.10.09

Lázaro


“Juventude é uma besta incongruente e cega. Anseia por alimento mas não come, é demasiado tímida para comer.” 
Nikos Kazantizakis – Testamento para El Greco,
 Ed. Artenova, Trad. Clarice Lispector



Lázaro, até que sua arrogância não o inflasse, seguiria a pé até Jerusalém. Há época para todo tipo de acontecimento: para Lázaro o milagre. Ele, senhor de si e dos enganos, convertia pássaros em agonia. Retórico, não era capaz de pensar sem longas perorações: 

"José, o que te direi se não sobreviver?
Que sou um perfeito imbecil?
Teimoso até em minha morte?
Ou que não saberia fazer da vida  metáfora de coisa maior?
Ora, amanhã cedo partirei para outro lugar. Sim. Não sei ainda para onde. Talvez para casa da minha infância."

Desta vez lhes garanto caros, fora uma exceção.
E foi assim que fez, contou moedas e mentiras, teimoso, não esperou pela promessa que lhe fora revelada em sonho, levantou cedo, isso mesmo, da tumba ao berço. Era ansioso demais para aguardar sua própria morte.

E sua viajem não acabava nunca. Dava-se por repetições tão absurdas que, naquele parágrafo em que era arrogante, necessitava conciliar seu choro estridente por sede e cansaço: não saberia com precisão decifrar a agonia de quando criança. Anacrônico, já podia citar Funes, O Memorioso, sem ofender Borges pela frouxidão do seu estilo, ou melhor dizendo, das suas recordações. 

O resultado era uma vida tensa. Ora domador de cavalos, ora contador de histórias estranhas, contribuía com a atualização do Midraxe-hagadá. Capaz de falar de árvores e pássaros. Do vento fresco que lhe tomava a fronde no outono, da água fresca tal vento da frase que passou e tâmaras, muitas delas, sem figurar nada disso como pintura de quadro para liberdade: amava imagens sobre o campo. Isso. Nada. Lázaro.


Henrique Henrique





3.10.09

Aplausos e Sem título provisório


Sem título provisório

da minha máquina obituária
de tudo e nada e o mesmo
a máquina de dizer beleza
de trair beleza:
a máquina de fazer poemas
ela:      
diz um poema que agrada
até que nada os aplauda.

5.9.09

projeto uníssono



jovens poetas  jovens no projeto uníssono,
confiram. 

> beata beat fulminante, ( ), (leleleleminski) (álvaro andrade)
> voyeur, poética do grilo, ideusgrama (gibran sousa)
> "poema sem título", de separação e saio (diego ribeiro)
> o entrevistado disse, na entrevista: ( james martins)
> pálpebras azuladas ( leandro rafael perez)

    28.8.09

    .
    .
    .
    .
    .
    um bosque devastado nos acolhe
    .
    .
    .
    .
    .

    21.8.09

    natura, natura. n

    quando afagia 
    gosto numa
    porção de hálitos
    e outra persona

    insana reclama
    afago 
    a costa norte
    as  costas castas  
    a boca e a língua tocam a faca
    cubículo aceso
    o gesto da fala 

    vácuo
    nozes, castanhas
    e a luz da lâmpada
    que modifica a  forma
    no olhar
    ou ajeita no canto
    maçãs na 

    palheta.

    18.8.09

    como um soco num rinoceronte




    #

    e sua forma:
    pelo nome
    eco que diz

    e
    vai soooooooando
    como um soco num rinoceronte.

    e cala.
    antónia,
    tuas flores desta estação
    viçosas,
    eriça os poros as veias os
    recados de amor
    os retratos do
    eco
    em norma.
    em soco.

     

    29.7.09

    poesia poesia


    1:1/P1

    novo é blog da uníssono. projeto de jovem poeta para fazer ouvir em uníssono, sim, a um só som, uma só voz, o que fala a boca, a palavra, a escrita-jovem, daqueles jovens poetas pouco conhecidos de uma certa mídia para gigantes do brasil quase alfabetizado.

    não é gueto.
    - espero.

    trata-se de à maneira de mural ou painel, lançar pelo veiculo da moda, o blog (twitter também) a escrita de jovens autores igualmente obcecados pela escrita, tal o criador da página e projeto, j. salazar.

    tenho o dito.




    20.7.09

    contra senha

    amo amo amo 
    restos, 
     ou o que não há mais 
    nos textos da moda 
    lojas de verso 
    de palavra 
    eles dizem 
    para aquele rapaz, 
    eles dizem 
    amado, amado: com a vergonha 
    do dizer seu ato, 
    assumir seu ato, 
    não, 
    não 
    apago.

    7.7.09

    Beatriz descalça

    Notre Musique, Jean-Luc Godard, 2004


    Hino

    é quando o dia 
    decorre
    da pele
    dela
    branca  neve ou
    branca a mármore
    e Beatriz desce
    do alto
    e seus pés à vista
    excita
    lá
    sol e
    mi
    e de cheio
    eu creio no que vejo
    tornozelo n(ú)
    mármore branco
    o dedilhar da 

    fria pedra
    quando 

    ela desce
    camaradas.

    5.7.09





    #

    Era maluco,
    com o livro de Pound debaixo do braço:
    não articulava som algum,
    y-lógico

    Sem sentido,
    tomava conhaque:
    às musas,
    vinho e almanaque.

    Mais não rimava,
    era maluco.

    10.6.09

    Dante e a Virgem

    Dante Alighieri (1265 -1321) era homem de temperamento difícil: reza a lenda que estando na corte Bartolomeo Della Scala, aquele, lhe interpelara de seu temperamento aborrecido: “me divirto com os bobos da corte, estes me fazem rir... ao passo que homem tão sábio sempre tão mal humorado” ao que este lhe respondeu: “semelhante com semelhante”, conta Thomas Carlyle em Os Heróis. Conclua leitor, o que então, tal temperamento era capaz de fazer.

    Dado importante foi quando esse mesmo poeta embirrento encontrou Beatriz: senhora dos seus sentidos, graça da sua lira e mística: Vida Nova, lugar de conversão para a maioria, nele, se deu na visão magnífica dessa mulher misteriosa, a um só tempo arquétipo de uma porção de alegorias, que a fecunda Idade Média soube atribuir. O que nos causa estupefação é o fato de ser a própria Beatriz o Céu para Dante: de fato Céu ali é um lugar geográfico, pelo estilo de organização pitolomaico-aristotélico e habitado por figuras ilustres: Santo Tomaz de Aquino, São Francisco de Assis, São Bento et caterva.

    Entrementes, quando lemos :

    “Se no fogo do Amor te resplandeço
    se atendestes razões dei poderosas
    Para ficar tua dúvida solvida:

    Causa te fora a angustia afanosas.
    Mas ante os olhos ora vês erguida
    Outra ainda mais grave, que, por certo

    Não fora só por ti desvanescida.
    Já te hei bem claramente descoberto
    Que não pode mentir alma ditosa

    Pois da suma Verdade é sempre perto... ” :

    Sabeis quem é para o Poeta aqui lugar de identificação com a suma Verdade... Estudiosos debruçam-se sobre a ousadia de Dante, como p. ex. nessa passagem citada; É como dizer: todo Céu e Teologia medieval tem naquela Mulher um lugar de “antropomorfização" do divino, por falta de palavra mais justa, de neologismo mesmo, daquela mulher especifica que é modelo, forma, arquétipo, de toda uma geografia que escapa a capacidade de representação para a simples inteligência humana: quem ou o que é próximo da Suma Verdade?


    Giovanni Papani no seu magnífico Dante Vivo diz, entre uma porção de disparates, que só um florentino pode compreender a Divina Comédia: e nós, pobres mortais e soteropolitanos? Ele continua dizendo que o que levou a confecção desse sacro poema

    “em que tem posto a mão o céu e a terra
    e em que hei por tanto tempo emagrecido”
    Canto XXV, Paraíso

    Fora divida com a Virgem Santíssima, alias, outro lugar de compreensão desse fenômeno de persona em Beatriz, e que por isso fora escrito... Romance, Teologia e Mística, Poesia, strictu sensu, são focos de leitura para o caleidoscópico poema divina: de céu, inferno e imaginação, que, como no giro do objeto citado, ora se deixa ver mais claro ora, mais escuro: “Pape Satan, Pape Satan, Aleppe” Canto VII, v.1

    Eis os versos que interessa ao A VOZ DO CEPA, o tal Hino à Virgem:

    “Virgem Mãe, filha do teu Filho,
    humilde e alta mais que qualquer criatura,
    termo prefixado de eterno desígnio,

    Tu és aquela que a natureza humana
    Enobreceste de tal forma, que seu Criador
    Não desdenhou-se fazer-se sua criatura.

    Em teu ventre reacendeu-se o amor,
    Por cuja calor na eterna paz
    Assim germinou esta flor

    Aqui és nós luz meridiana
    De castidade; e em baixo, entre os mortais,
    És fonte de vivaz esperança.

    Mulher, és tão grande e tantos vales,
    Que quem deseja graças, e a ti não recorre,
    É como alguém que desejasse voar sem asas...”

    Ou pela desastrosa tradução de J. P. X. Pinheiro:

    “Virgem Mãe, por teu Filho procriada,
    Humilde e sup’rior à criatura,
    Por conselho eternal predestinada!

    Por ti se enobreceu tanto a natura
    Humana, que o Senhor não desdenhou-se
    De se fazer de quem criou, feitura.

    No seio teu o amor aviventou-se,
    E ao seu ardor, na paz da eternidade,
    O germe desta flor assim formou-se.

    Meridiana Luz da Caridade És no céu!
    Viva fonte de esperança
    Na terra és para a fraca humanidade!

    Há tal grandeza em ti, há tal pujança,
    Que quer sem asas voe o seu anelo
    Quem graça aspira em ti sem confiança
    ...”


    Paraíso, Canto XXXIII Trad. J.P.Xavier Pinheiro


    Onde se condensam pelo menos 1.500 anos de tradição cristã: aí o Magnificat, Lc. 1, 52: “Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes.” Bem como o dogma da Imaculada Conceição, a toda pulcra, a casa de Deus, Theotokos, mãe de Deus.

    Toda originalidade do Canto repousa na inversão que de há muito já é inversa: o Filho que é Pai da sua Mãe que por sua vez fora gerado sem esperma, numa Virgem que, por isso, também fora concebida sem pecado: naquele temos o que só a fé valida e neste, o signo poético que encontra a mística e que, por sua vez, junto com o Je Vous Salet Marie, nos faz indagar: como isso foi possível?


    Para o leitor moderno e pós-moderno ler a Commedia é tarefa importantíssima: é só não esquecer que o prêmio Nobel de literatura do séc. XX T. S. Eliot, no belíssimo Terra Desolada, trata sobretudo do problema do homem moderno sem Deus, seco, sem capacidade de contemplar o transcendente, de fruir na mística:


    “Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham
    Nessa imundície pedregosa? Filho do homem
    Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces
    Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
    E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o
    canto dos grilos,
    E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas
    Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.
    (Chega-te à sombra desta rocha escarlate),
    E vou mostrar-te algo distinto
    De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
    Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
    Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.”

    O Enterro dos Mortos, Terra Desolada, T. S. Eliot

    “O que é grande no homem é que ele é uma ponte e não um fim” (Nietzche) diz o filosofo alguns séculos depois: o arco do poema que é o da vida liga o homem a tudo: a mística, na religião, dialoga principalmente com o homem porque é mistério e a pergunta pelo Homem é pergunta pelo seu sentido no vir-a-ser e não somente no posto aí. O Real nos inquieta tanto quanto o Encoberto.

    Ainda no tema da Virgem, vale recordar o complicadíssimo Duns Scotus, quem demonstra, filosoficamente, sua virgindade: vejam depois caríssimos.