30.11.09

quando daquela canção tristíssima


"ouviu os gansos-selvagens no canto de tristeza"
do canto liii, e. pound
#

do canto do tédio
que broto
de nada em si
re-boco.

alice,
teu interlocotor diria
rizo-amargura: diria
alice,
não é fuga o canto
o tédio das arvores sempre verdes,
belíssimas
alice,
belíssima.

um não.

26.11.09

sim, para minha oposição

 

22.11.09

qndo lhes empresto meu olhar


a porta do inferno, augusto rodin [1840-1917]

#

"nada importa a não ser a valia do afeto"
c. lxxviii, e. pound


bem sei que a maioria procurava um espaço pare ver “o beijo” ou o “o pensador” no entanto, eu só pensava mesmo ver, demoradamente, a tal porta do inferno: como fiz, minuciosamente, minutos a fio.


ah! demorei-me por quase o tempo do esquecimento. detalhe a detalhe, tête-à-tête. da rachadura ao retoque no tempero & na intemperança, rememorando o inferno de zênon, do inferno dela mesma [?], sim, yourcenar.


reconheci assustado um beijo na porta do inferno. o amor na porta do inferno. uma figura retorcida na porta do inferno: eu mesmo buscando um poema, daquele lado da cabeça onde repousa o inconsciente.


o museu rodin. o palacete, já não é o mesmo de aulas, visitas, recitais, exposições de antes. a galeria ocupada me remeteu ao espaço vazio de antes: só quem recorda pode visitar museus. os que esquecem são um museu em particular. eu era o objeto de antes de qndo nada ali habitava no espectador de agora, com a referencia do claro/escuro, do cheio/vazio, da mudança até a ocupação. "o meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na vilheice a adolescência. pois, senhor, não consegui recompor o que foi no que fui.", casmurro de mim mesmo.


& tudo corroborava ao contrário. turba multa & fruição são coisas de diálogo escasso: isso soube qndo não beijei a pedra, não beijei o beijo, da cabeça à imagem, como nesse texto, cheio de encontros, para impressionar o leitor.


a anatomia branca como a pele da mulher que nunca beijei, acenava ao insulto do puro. do casto logo a mim, transbordante de obscenidades. é que a beleza desconserta.


eu também recordei dos versos que recitei no pátio daquele ano incrível. eu também recordei da coisa que se completa no olhar, cheio de pathos, eu lembro de tudo antes de borges & funes, o memorioso.


depois fui assistir filme na casa de sebastião. fui planejar coisas que ainda não posso lhes contar. volto logo.

18.11.09

fronteiriça


#

no que não toca
é que leva aos cacos,
midas amigo do fracasso:
zorba zunindo em tom de dês-fonia,
arranha em cascas
tua agonia:
alto,
canta ex-horas ex-ilhas ex-ninhos
asfalto
ou o que quase em blake-ou-quase-em-quase

fracasse,
tua moral é toda em tom de nunca-faço
& ñ mora em casa onde casa habita
da mão que reside tecer exalar
não diz nome
exílio,
ou o punhal que é mão que é vítreo,
.

16.11.09

& qndo a simpatia vem de portugal?


#

leonardo b. & suas impressões [prestidigitações?] digitais ou,



aqui.

12.11.09

de sigur ros p/ gf ou música para [boca]ouvidos afonicos/acofonicos,

-/+

de satie p/ lrp ou música para um poeta sonoro

+/-

recado



"piedade é a falência das florestas,
[...] piedade é fundo e fonte."
e. pound, os cantos, canto xxx.
trad.: j. l. grünewald
#

dafne caríssima,
o que escora na
fresta
sombra fechadura
porta,
o que retoca ou
caça
colhe arrasta?

dizer assim:
respondo em carrara,
toda casta

11.11.09

Dentro dum livro de Mourão-Ferreira

Leonardo B.



1.

Se a perfeição
Fosse uma ínfima parte da poesia
Seria poeta
Apenas pelo lado da fantasia.

E se as flores, como a felicidade
Desejassem ser para sempre
Um poema simples
(secreto meio-dia
Deste dia de namorados)
Feliz da felicidade
Feita por estas flores, esta poesia
Da minha idade, este distinto dia.

2.

Imagina tu,
Que a vida nem é um grande rio.
Senta-te, sorri e
Imagina tu
Que coloco a flutuar
Um barco de papel em branco.
Imagina, que sigo e perco de vista
O barco em papel, só porque fico sentado
Eu a observar o que ele flutua.

Imagina tu,
Que deixo uma pedra nesta margem
E lanço-me por esse rio, só porque quero flutuar,
Também.

Este rio corre, e eu como ele
E olho para trás e para a frente
E não medi as consequências deste flutuar,
Nesta pequena perspectiva de viver.

Imagina tu
Que te levo comigo neste pequeno sossegar,
Neste pequeno saber, sentir o rio a correr
Sem ficar parado a observar
Ou o que poderia acontecer.
Ou seja, imaginar
Que a vida não é apenas um rio que passa,
Mas por viver
O único em que podemos mergulhar.

Almada, 14 de Fevereiro de 1992

(…)

9.11.09

RT: @suricateverde

Um post para Gilson Figueiredo

Não sei se já o leste, mas Daniel Faria foi um poeta português que morreu pouco antes de conseguir se ordenar padre, em um acidente doméstico, queda, tendo ao longo da vida sempre primado pela vida monástica, pelo silêncio da leitura e sobretudo pelo silêncio da escrita... Muso, certo? Seguem-se dois poemas dele:

Largo é o aberto abandonado
E o vazio é pata que sustenta
De leveza o ramo. O pássaro amanhece
E o seu canto não fere o seu bico.

*

Para que visses
Tão sinuosos como o interior dos búzios
E o dispersar assustado dos cardumes
Os olhos onde já não estão
Nem eles próprios nem outros
A florir.

*